sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Coisas pequenas (V)

A apresentação power point que a minha filha A. fez ao ar livre numa noite ainda quente de final de Verão. Imagens a correr numa tela de lençol feita cinema paraíso para muitos adultos e crianças. Uma selecção de férias com animação e comentários integralmente nascidos no seu coração (ainda) de criança. Desse coração os traços impossíveis de esconder da sua paixão maior: bichos.
~CC~

Janelas no Alentejo...

Entradas, Castro Verde

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Raparigas "entristadas"

Por vezes, na vida, tentamos compreender o que não tem explicação. Perseguimos sinais, em busca de razões inexistentes. Obsessivamente. Febrilmente, até. Esquecemo-nos, frequentemente, de procurar nos locais mais próximos e menos óbvios. Talvez por questões culturais, mas, certamente, porque estamos pouco habituados a procurar por dentro da nossa pele, por dentro de nós. A busca interior pode ser assim uma espécie de primeiro passo para entender o mundo. Por vezes, na vida, esquecemo-nos de procurar por dentro. No entanto, nessa busca, também encontramos alguma beleza. Hoje fica aqui a busca de um Unicórnio Azul…

Unicornio*

Mi unicornio azul ayer se me perdió,
pastando lo dejé y desapareció;
cualquier información bien la voy a pagar,
Las flores que dejo, no me hen querido hablar
Mi unicornio azul ayer se me perdió,
No se si se me fué, no se si se extravió,
Y yo no tengo más que un unicornio azul,
Si alguien sabe de él, le ruego información
Cien mil o un millón yo pagaré;
Mi unicornio azul, se me perdido ayer,
Se fue ... ... ...
Mi unicornio azul y yo hicimos amistad,
Un poco com amor, un poco com verdad;
Com su cuerno de anil pescaba una canción,
Saberla compartir era su vocación.
Mi unicornio azul ayer se me perdió,
Y puede parecer acaso una obsesión,
Pero no tengo más que un unicornio azul,
Y aunque tuviera dos, yo solo quiero aquel;
Cualquier información la pagaré…
Mi unicornio azul se me ha perdido ayer,
Se fue ... ... ...

Sílvio Rodriguez, Exitos de la Nueva Trova


*“UNICORNIO vio la luz com el título de “Noticia”, pues a Sílvio se le ocurrió divulgar la belleza de su reclamo, al estilo de un anuncio clasificado, pêro el público la rebautizó definitivamente.”

O fogo

O meu lado mais ocidental é o apaixonado pela Grécia. O meu pai, mais apaixonado que eu, sobretudo pelas Deusas gregas, foi lá buscar o meu nome. Das heranças, sobram-nos sempre nem que seja vestígios, vertigens.

O nome Peloponeso, no Sudoeste da Grécia, é agora tão belo como trágico. Numa aldeia aí localizada e com apenas 100 habitantes, perante o avanço das chamas, a população, após uma reunião no largo da aldeia, decidiu fugir. Formaram uma coluna de carros para a fuga, mas numa bifurcação dividiram-se, uns seguiram a estrada que subia a serra e os outros a estrada que a descia. Os primeiros salvaram-se e os segundos encontraram a morte. Esta descrição que ouvi assim a frio num canal qualquer de TV é de uma violência impressionante. A escolha da morte ou da vida podia ter sido evitada se as pessoas dispusessem de um minímo de informação que lhes permitisse a todas subir a serra. Mas as pessoas não sabem, não há canais de comunicação entre os bombeiros, a protecção civil e as populações e se os há são deficientes. O desespero nesta altura toma conta de tudo e dos bombeiros também, eles parecem preparados para o fogo mas não para ajudar as populações.

Há cerca de 16/17 anos passei por uma situação semelhante em Portugal. Coordenava uma colónia de férias na região Centro que se situa(va) perto de uma vila, ficava a uns 3 kms. Tinha sob a minha responsabilidade de outros monitores cerca de 100 crianças e jovens entre os 7 e os 16 anos. Já tinha vivido alguns incêndios ali e não me assustava com muita facilidade até porque sabia que quer os bombeiros, quer a população estavam muito treinados naquele combate. Mas daquela vez o céu esteve dois dias feito chumbo e o fogo estava cada vez mais próximo, as chamas viam-se das nossas janelas e enquanto estiveram do lado do rio estive tranquila. Mas quando as vi da outra janela e estavam do lado da estrada, assustei-me a sério. Liguei para os bombeiros várias vezes e expliquei-lhe a situação em que estava. Os problemas respiratórios começavam a aparecer, para além do medo. A única resposta que obtive foi: se piorar, leve-os a todos para o largo da vila e aguarde lá. Ainda questionei como nos tirariam aos 100 do largo da vila, uma vez que a população se podia juntar nos seus carros particulares mas nós não. Indicaram-me a empresa de camionagem mais próxima. Não sabia como contratar um autocarro, dizendo-lhes que precisavámos deles se o fogo piorasse. A empresa respondeu que deslocava para lá o autocarro e pagavámos o serviço ao dia, sem cobrar à partida a despesa dos km. Durante dois dias tive lá o autocarro à porta para que as crianças e jovens pudessem dormir. A factura foi grande e a direcção da Associação teve alguma dificuldade em compreender.


Mas pior que isso é perceber hoje que se calhar também nós, na fuga, podíamos simplesmente escolher um caminho errado.
~CC~

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

(Co)existência

Aqui está um espaço que, um dia, gostaria de visitar. Descobri-o nesta casa que é sempre uma boa casa para se passar.

Quotidiano(s)

Quase meio dia de um dia mais de Agosto. Serviço de Gaz com fila grande e pessoas que falavam baixinho, quase com vergonha, sem que percebesse bem a razão. Quando chegou a minha vez percebi. Solicita e compreensiva a funcionária perguntou: se quiser pague apenas a primeira factura para que não lhe cortem o gaz e depois ainda tem quase um mês para vir pagar a segunda. Eram estas as histórias das pessoas que falavam baixinho. São histórias tão banais, tão quotidianas, tão difíceis, sem qualquer interesse para televisão. Apenas com mais duas ou três palavras trocadas com a funcionária e soube o que queria: a empresa tem muitas dificuldades com as cobranças e até estão a repensar todo o sistema.

Um país que gere a conta gontas o pagamento dos bens essenciais. Verdades silenciadas a destas vidas da classe média baixa que sem subsídios disto ou daquilo e com salários que não chegam ao fim do mês lutam por manter a sua dignidade.

Há pior, pois há, e então?
~CC~

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Sentires subterrâneos*

Sentires subterrâneos. É como percepciono a efervescência “blogueira” cá do "burgo".

Penso que se não fosse a Internet e agora os blogs não era possível uma rede tão larga de partilhas de palavras, sentires, emoções, pensamentos. Mas, para mim, tem limites. É o grau zero, não da escrita mas da troca, da comunicação, no primeiro sentido do termo: pôr em comum.

Penso ainda que há um país que fervilha nesta actividade, um país de que se fala pouco nos jornais, na televisão (aquela para quem alguns é uma forma de existir, quase exclusiva. Não passa na televisão? Então, não existe!)

As cumplicidades assim tecidas, ficam numa dimensão etérea. Por mim preciso de sentir de perto, de tocar, de ouvir, de ver, de rir ao mesmo tempo, de sintonias simultâneas.

O meu avô materno, que tinha uma personalidade um tudo nada autoritária, se não mesmo fascista, era um profundo admirador de Salazar e nunca se recompôs do 25 de Abril. Esse mesmo avô, mandava os filhos e filhas apanharem a fruta das árvores da quinta e depois deixava-a apodrecer impedindo-os de comer, esse mesmo avô nunca me deu um beijo, esse mesmo avô costumava dizer, cinicamente, que quanto mais conhecia as pessoas mais gostava dos cães.

Pois eu sou exactamente ao contrário. Sem ingenuidades, nem hipocrisias, continuo a gostar muito de descobrir pessoas e a achar que quando valem a pena é bom tê-las por perto.


*No sábado passado, o meu amigo V. deu-me a ouvir uns Srs. desconhecidos para mim, que muito gostei de "conhecer" e que me acompanharam neste bocadinho de escrita: Tord Gustavsen Trio, The Ground, ECM, 2004

Um Guarda-rios para a minha amiga


Hanna Arendt

Hanna Arendt. Personalidade rica e contraditória como todas as personalidades ricas. Porque cheias das contradições de que é feita a humanidade.

Gosto de lê-la e de pensar no que escreveu e no que pensou. “Agarrei” duas frases sobre um termo que se tornou quase incontornável nos tempos que correm nas sociedades ocidentais: crise. De valores, das instituições, dos casamentos, das relações pais-filhos, do Estado-Providência, da democracia, das vidas dos indivíduos, de todos nós, da adolescência, da meia idade…enfim, a crise generalizada.

Em 1961, ela escrevia então:

a crise tem sempre como efeito fazer cair máscaras e destruir pressupostos”. Positivo efeito, pois.

E, mais adiante assumia que:

uma crise só se torna desastrosa quando lhe pretendemos responder com ideias feitas, quer dizer, com preconceitos. Esta atitude, não apenas agudiza a crise como faz perder a experiência da realidade e a oportunidade de reflexão que a crise proporciona.”


ARENDT, Hanna, (1961), “A crise na educação”, in Revista de Educação, vol.V n°2, Lisboa, DE/FCUL, 1996, pp.124-134

Bonecos

Em Praga eram lindos os bonecos de todos os tamanhos e cores que nos espreitavam em qualquer canto da cidade. Tenho fascínio por eles. Cruzei-me anos e anos e de quando em quando com o mestre Filipe das Marionetas, um homem que tinha deixado um cargo sólido e seguro e de ordenado garantido numa multinacional da área da informática pela vertigem e insegurança dos bonecos e do teatro de rua. Agora já não o vejo há muito, mas como espectador ou participante deve estar no «VI Festival Internacional de Máscaras e Comediantes» que se realiza no Castelo de S. Jorge em Lisboa, de 23-08-2007 a 09-09-2007 , de quinta a domingo, às 22h00.


Gostaria muito de ver, por exemplo, a companhia do Centro Cultural do Mindelo, que irá apresentar "O Doido e A Morte" de Raul Brandão. Mas deve haver mais, muito mais. E estes bonecos precisam de espectadores.

~CC~
Informação e imagem retirada de:

Coisas pequenas (IV)

Ter um vestido vermelho de Verão. Não um vestido vermelho que se cola ao corpo e mostra decote e pernas. Ter um vestido vermelho que esvoaça sobre a minha pele e descobre apenas os ombros porque essa é minha escolha do que quero mostrar. Olhem os homens para onde olharem, apreciem eles o que quiserem, tragam as revistas as modas que trouxerem, há muitos modos de ser mulher e sou eu que escolho o meu.
~CC~

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Guarda-rios e estuários (XII)



A mulher mais velha que guardava as sementes do povo Almar: o tesouro do meu povo. Nas palavras que tinha dito em voz baixa ela anunciava a ruptura que chegaria mais tarde, no final da minha adolescência. No modo como ela tinha dito que cada um dos meus sonhos colado a cada uma das sementes Almar era apenas o meu sonho, tinha o valor infímo de uma coisa, apenas uma entre as infinitas possíveis.


Soube nesse dia que não era eu a arquitecta do destino Almar porque esse estaria nas mãos de quem soubesse ler e não de quem soubesse construir, não de quem, como eu, desenhava na areia com tanta inquietude. E eu não lia bem nesse tempo, tinha essa dolorosa consciência de que me era mais importante escutar-me do que escutar os outros, mas não a generosidade suficiente para mudar. Mais, nesse tempo soube que a ruptura entre mim e o meu povo residia nesse modo de olhar o colectivo, na recusa em deixar moldar a forma do meu corpo pela do sangue quente que lhe tinha dado origem. No modo como ela, a mulher velha, diminuiu os meus sonhos e me reduziu a um ponto no universo dos pontos, começou aí a minha viagem. Mas não quereria, nunca quis que as sementes Almar se perdessem e muito menos que o meu povo se desligasse e se tornasse mais fugitivo e mais transparente que o próprio vento.


Apenas me revoltava porque tinha sonhos para as sementes enquanto muitas outras ficavam caladas quando se lhes perguntava ou diziam : não sei. Algumas das minhas companheiras usavam uma variante mais sábia: ainda não sei. E quando eu gritava: eu tenho sonhos, cinco ideias para as sementes, era frequente que o riso nascesse entre as mulheres mais jovens. Mais realistas que eu, afirmavam que sonhar as sementes era apenas um modo da mulher velha nos por à prova, porque o que era cada semente e o que dela nasceria, isso já se sabia há muito.


Onde estão as sementes, as sementes do meu povo Almar, é essa agora a minha angústia. E maior ainda é pensar que sei onde estão mas que me posso ter esquecido, que apaguei isso da minha memória como certas zonas de maior violência ou tristeza. Pior ainda é pensar que as tomei com o resto de algum rio, com a última água de alguma das nossas fontes, que as engoli todas numa noite escura e que agora vivem dentro de mim sem que eu saiba verdadeiramente o que são.
~CC~


Mulheres de coragem.

Conta-se que era uma mulher de coragem. Certo dia percorria, ao anoitecer, um caminho, por entre os montes, que ligava a aldeia do marido à sua terra natal. Por única companhia tocava um burro que carregava alguns haveres. Numa encruzilhada, num lugar ermo, foi rodeada por cinco lobos que se sentaram imóveis à sua volta. Deixou o burro e, devagarinho, foi avançando alguns metros. Ao ver que os lobos não se mexiam e, como seria de esperar, não se lançavam sobre o burro para o comer, voltou atrás e, como que pedindo licença aos bichos que não deveriam ter fome nesse dia, pegou nas rédeas do companheiro de jornada para, de mansinho, continuarem ambos o caminho.

Ficou a história para contar aos filhos que agora podem levar os netos, que mal a conheceram, ao mesmo lugar ermo e dizer: "foi aqui que a avó ficou rodeada de lobos".

Eduardo Prado Coelho

Não foi por desatenção que a sua morte não foi aqui assinalada. A morte de alguém que nos habituámos a pensar eterno, é sempre uma surpresa. Pessoalmente, tenho em relação a estes "abandonos" um eterno sentimento de orfandade. Mesmo que não se concorde, mesmo que achemos excessivas algumas posições, ficamos decerto mais pobres quando estas vozes fenecem, assim, de repente.

domingo, 26 de agosto de 2007

Coisas pequenas (III)

A beleza de acordar com a trovoada intensa de Agosto.
Não se aguentar nenhum agasalho apesar da chuva forte.
Depois, da alma lavada, entrar no mar de tom prata.
~CC~

O tempo

O tempo (es)corria devagar por detrás das persianas do quarto. Ao brilho dourado do sol sucedia-se a alvura de uma lua de Agosto, plena, prenhe de promessas. Setembro estava quase a chegar e, com ele, todos os reencontros possíveis.

Fazia muito tempo que tinham abandonado a terra quente. A sua África. Pensava nela às vezes a propósito de alguma notícia de jornal. Pensava. Mas sentir achava que nunca tinha deixado de a sentir. Quente, mansa, por debaixo da pele, à frente dos olhos quando conseguia fechá-los e descansar. Um descanso estranho, agitado, procurado nos momentos de angústia. Sabia da habilidade do tempo para esculpir memórias, rostos, paisagens e sabia que jamais poderia recuperar o passado deixado atrás dela. Talvez por ser um passado que tinha sido presente demasiado cedo. Assim como se fosse um passado prematuro. Mesmo assim, teimava em acordá-lo todas as noites. Amodorrado, encostado numa curva da memória, ele insistia em ficar onde estava, não se deixava agarrar. Tinha cumprido o seu papel, estava amarelecido, as rugas eram já indeléveis, como as de um velho pergaminho e sabia que, mesmo que ela quisesse muito, jamais poderia ser (re)escrito. Que o deixasse ficar quieto, cansado de guerras e viagens e afrontas feitas por um presente que o tinha traído, porque o futuro cantado em amanhãs impossíveis não tinha chegado.

Agora era chegado o momento de partir. Sobretudo de partir de si. A viagem estava próxima, a mala estava quase pronta, as despedidas quase todas feitas, tinha tomado todas as vacinas, todas, menos uma. Tinha calcorreado todas as farmácias, tinha consultado vários especialistas, tinha conversado com muitos amigos, mas sabia de certeza segura, daquela certeza com que são feitas todas as incertezas, que não estava preparada para o reencontro com as dolorosas marcas que o tempo tinha deixado na sua memória. A esperança era a única bagagem legítima e as lágrimas que antecipavam a emoção do reencontro a única forma de purificar o olhar.

Coisas pequenas (II)

A beleza da água salgada poder rodear e entrar no corpo nu no lugar mais a sul de Portugal.
~CC~

Coisas pequenas (I)

A beleza dos lirios brancos e bravos que nascem no lugar mais a sul de Portugal.
São tão bravos que nunca nascerão em vasos nem adornarão as soleiras das portas.
São tão brancos que quase não se distinguem as suas flores nos dias de sol intenso.
~CC~

Teatro de rua.

Castelo de Bragança, Agosto de 2007

Ainda Trás-os-Montes

sábado, 25 de agosto de 2007

Todas elas

Sim, podem ser todas elas ou talvez não, confio em alguma imunidade que me tenha sobrado da infância. Quinino, aquele comprimido amargo, não me protegerá ainda? Pois a senhora é que sabe, mas o tétano não pode ser depois, isso apanha-se em qualquer parte do mundo. Sim, sei que somos todos uns insconcientes e eu a maior de todas que já nem sei onde anda o meu boletim de vacinas, chega-me ter certinho o da minha filha. Esqueça esse nacional, olhe dê-me um amarelo, um para o mundo todo e se possível algures na lua ou em Vénus. Vénus é um lugar potencialmente perigoso, qualquer febre deve-se apanhar lá e daquelas de que não há protecção possível.

Tome um braço, tome o outro, onde queira picar mais. Já agora uma vacina contra a miséria do mundo ou as outras que que vivem dentro de nós, pois está bem, já sei que essas não estão abrangidas no plano nacional de vacinação. A senhora tem voz certa e segura de quem sabe mas o que me propõe é demais, por hoje chegam só quatro. Sim tenho alguma dor, o braço quase não tem força, mas deve ser a da tifoide a apanhar-me os músculos e amanhã já passa.
Vinte anos ali e nunca tinha vendido uma vacina contra a coléra, pois, não sei que lhe diga, só que antes já tinha corrido umas quantas farmácias e nem sabiam o que era. Mas sabe que antes do 25 de Abril também a recomendavam aos estrangeiros louros que vinham para este cantinho à beira mar. Pois é, foi antes da Democracia e antes da CE. Quarenta euros a vacina, pois agora percebo porque é que uns vão e vêm e não a apanham, para já não falar nos que lá vivem a vida toda e nunca a tomaram nem tomarão. Diz a senhora que esses estão naturalmente imunes ou então talvez possam morrer naturalmente pois lá a vida pode ser curta que pouca diferença faz a quem vive neste lado do mundo.

Os sentimentos estão assim dentro das palavras a atropelarem-se cheios de sentidos ambíguos como uma moeda que na cara pode ser alegria e na coroa pode ser a tristeza. Mas é mais alegria.
~CC~

Os caminhos da minha infância...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899

Para quem passa...e, detendo-se, lê.

Soy
Jorge Luís Borges

Soy el que sabe que no es menos vano
que el vano observador que en el espejo
de silencio y cristal sigue el reflejo
o el cuerpo (da lo mismo) del hermano.

Soy, tácitos amigos, el que sabe
que no hay otra venganza que el olvido
ni otro perdón. Un dios ha concedido
al odio humano esta curiosa llave.

Soy el que pese a tan ilustres modos
de errar, no ha descifrado el laberinto
singular y plural, arduo y distinto,

del tiempo, que es uno y es de todos.
Soy el que es nadie, el que no fue una espada
en la guerra. Soy eco, olvido, nada.

O teu dia...

Por vezes acontece-me não sentir especial empatia com algumas pessoas nos primeiros encontros. Penso tratar-se de um qualquer mecanismo de defesa que me avisa: "tem cuidado, se te aproximas ficas ligado por um qualquer elo invisível". Felizmente, algumas vezes, não dou ouvido ao tal mecanismo e acabo por ficar ligado com quem, inicialmente, não simpatizei muito. Aos poucos vou conhecendo melhor essas pessoas, mesmo as que teimam em proteger os seus corações, de proporções avantajadas, por carapaças de mau feitio. De uma maneira geral penso que quanto mais grossas é a carapaças maior é o coração que tentam esconder e assim raramente o conseguem fazer por muito tempo ou de toda a gente. Aos poucos apercebo-me do privilégio e sorte que é poder contar com a sua amizade e formulo desejos de poder guardar essas amizades por muitos e muitos anos.

Não sei como eras há 10 anos, mas ainda bem que te conheço hoje.

Parabéns Cristina!

O teu dia


Cruzei-me com ela sem a ver. Demorei tempo a reparar nela ou demorámos. E não consigo saber o momento em que o olhar se demorou nesse anteceder da amizade. Lembro-me que a cumplicidade foi chegando devagar, como se fora uma planta que só ao fim de algum tempo nos traz a flor.

Dizer da sua singularidade implica dizer o modo como ama as palavras, se demora a olhar o que é belo, se emociona com as filhas e enche o seu coração de música. Implica falar de uma mulher numa busca incessante de si própria. Dizer da sua singularidade implica afirmar que tem o seu modo próprio de gostar das pessoas e de se agarrar a elas, mesmo quando se imagina lisa de amarras. Implica dizer que está no lugar certo, próxima na sinceridade com que se tecem os verdadeiros amigos, está lá a dizer-nos as suas verdades que agradecemos mesmo quando não são as nossas verdades. Está lá também no esboço dos horizontes e dos sonhos. Companheira de Blogue mas muito mais que isso, companheira destes últimos anos, difíceis anos sem dúvida. Desejo que possa saborear perto dela por muito e muito mais tempo o maravilhoso gelado de baunilha que tão bem sabe fazer. É bom estar perto.

Parabéns companheira.
~CC~

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

10 Anos*

Quantas mães e quantos pais já escreveram, sentiram, pensaram ou disseram o mesmo que eu escrevo hoje ao ver crescer um filho ou uma filha? Não importa. É a vida que se renova em cada um de nós. E de uma maneira ou de outra vamo-nos revelando em cada respirar, em cada sentir.

Há dez anos atrás eu era outra. Pior, julgo. Menos generosa, menos desprendida, menos preparada para os outros. Primeira filha, primeira vez mãe. Um frio no estômago trazido pelo medo de falhar, de não estar à altura. Mas o amor pode tanto que me assombro. Uma assombração feita de luz e pó de estrelas.

Olho-a e vejo a promessa de uma bela mulher, mas no fundo dos meus olhos, bem lá no fundo, lá onde o olhar conflui com as linhas do coração, não deixarei nunca de vê-la como aquela bebé pequenina e enrugada que saiu de mim. O cheiro dela, não esquecerei nunca. Os sustos, as angústias, as saudades quando não está, estando sempre de qualquer modo. A cumplicidade que começa a despontar e o profundo encontro na troca de olhares. As confidências, os medos, a confiança dia-a-dia construída. Um caminho. Uma linha de traços descontínuos. Como a vida. As zangas, as discussões e depois os abraços profundamente sentidos, as lágrimas de alegria saídas daquele olhar de veludo, quando a paz regressa. A normalidade reposta. Não no sentido em que se cumprem normas, mas no sentido do respirar, do pulsar cadenciado dos sentimentos suaves, que têm por lastro fortes nós que nos unem.

Hoje é o teu dia, parabéns e obrigada por existires assim, tal como és.




*Escrito ao som de The Köln Concert de Keith Jarrett, (1975)

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Ainda as meninas de férias

Uma borboleta veio saudar a menina mais crescida... enquanto a outra olhava bem nos olhos um peixinho vermelho.


Menina com peixinho vermelho

Borboletas nos cabelos

domingo, 19 de agosto de 2007

Imagens...

Caipirinhas à janela

Arte em forma de garrafa


Ao longe um barco...

Diálogo (in)sólito: o meu corpo e eu

Ele: Obrigada por esta tarde.
Eu: De nada.
Ele: Que macambúzia que estás, nem quiseste saber porque te agradeci.
Eu: O quê?
Ele: Sim, agradeço-te por me teres trazido um pouco de paz. Ouves-me? Às vezes não consigo agarrar-te.
Eu: Desculpa, tens razão, devia ouvir-te mais vezes
Ele: Gostei das mãos dela. Descansaram-me e abriram-me as portas para fugir um bocadinho de ti. Às vezes não me dás tréguas. Gostei dela. E tu?
Eu: Também gostei, é uma mulher forte
Ele: Tu e as mulheres fortes…, pois eu, achei-a suave mas determinada.
Eu: Concedo. Mas eu diria antes que é telúrica na sua brandura. Assim como a terra que se move sem darmos por ela.

sábado, 18 de agosto de 2007

Agosto


Agosto. O meu e o dos outros. Este "outro" é muito especial. Pelo menos para mim. Gosto muito de lê-lo, de (re)encontrá-lo a cada livro que escreve.

"...Tu nem sequer imaginas como podem acabar subitamente certos Agostos que esbarram contra um Setembro temporão, como um automóvel contra uma árvore, e se encarquilham, esmorecem como uma concertina sem fôlego. Tanta bazófia na canícula da Assunção ou quando o céu nocturno solta os fogos-de-artifício de São Lourenço e os sentidos parecem tão repletos e a vida uma caverna de abóbadas altíssimas, quatro gotas de chuva, porém, o tempo de um corisco, e basta um só dia para engolir esse mês inchado e convencido... A vida também é assim, é como Agosto, dás-te conta que se finou num abrir e fechar de olhos, quando menos esperas, o elástico encolhe e nunca mais voltará a esticar(...)"p.53


Antonio Tabucchi, Tristano Morre - Uma vida, D. Quixote, 2006

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Leituras de Verão

Procuro ler-me.
~CC~

Caminhos centenários de Miguel Torga

O teu país que existe e é já outro.
~CC~

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Nos trilhos da água a Norte

Flor de sal

Desenhos de pedras na água















Sombras e transparências



domingo, 12 de agosto de 2007

sábado, 11 de agosto de 2007

Festival de cinema...

As cadeiras estão prontas.... Pode começar o filme!

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Passeios de fim-de-tarde...

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

A minha terra...

Foto de Raul Coelho (*)

Ir à terra significa, para todos os que não nasceram nas grandes cidades, voltar à aldeia onde nasceram ou viveram a infância. À medida que o tempo passa, e que as pessoas que nos esperavam na terra vão partindo, vamos invariavelmente regressando com menos frequência. No entanto, sentimos que seremos sempre de lá. Não sabemos bem porquê e, muitas vezes, nem percebemos o que realmente nos liga a esses lugares. Serão as recordações dos que partiram para sempre deixando aí muito do que a eles nos ligava ou serão simplesmente os lugares, as plantas o ar?

A minha terra é um pequeno lugar na serra de Bornes. Chama-se Covelas, terra fria e com grandes castanheiros. Pertence a uma freguesia chamada Sambade no concelho de Alfândega da Fé, em Trás-os-Montes.

Penso que sempre serei de Covelas, mesmo que tenha vivido lá apenas alguns anos. É para lá que vou dentro de dias, reencontrar tudo o que me liga aos que já partiram mas também rever alguns familiares que, este ano, não vi tanto como gostaria.

(*) Raul Coelho é a pessoa que conheço que melhor consegue captar as paisagens e as gentes de Trás-os-Montes com uma máquina fotográfica. Podem ver o seu trabalho em (http://olhares.aeiou.pt/utilizadores/detalhes.php?id=5674)

Parque das estátuas...

Há recordações boas e recordações más, mas todos temos recordações...

Os húngaros tinham grandes estátuas, do tempo da ditadura comunista, que não queriam continuar a ver todos os dias espalhadas pela cidade.

Em vez de as derreter, levaram-nas para um parque a alguns quilómetros de Budapeste.

E nós, o que fazemos com as recordações dos bons e dos maus momentos?

Terra (II)


Esta é também a minha terra, achei-a asim tão bem descrita por este rapaz que se dedica ao mel e que não conheço. E senti-a assim batida pelo vento forte de cheiro a maresia, demorei muito a gostar dela. Amei-a nas palavras de um avô que recitava António Aleixo e coleccionava vasos de cravos e cravinhos cujas cores estudava e inventava pela intuição da química. Vivia a sonhar a revolução que já tinha afinal chegado. Mestre terra, de olhos salgados e poucas falas. O mais improvável que podia acontecer era o nosso encontro, o do mestre a despedir-se da vida activa e da criança triste, sem norte. Mas aconteceu, ensinou-me a gostar de laranjas e de xarém e fez-me sentir que eu era mais que um nada, se quisesse, podia ser quase uma flor. Era o que eu precisava para seguir o caminho.

Depois a vida levou-me para longe dele mas sei que andou de bicicleta até morrer e cuidou sempre dos seus cravos.

Nós somos muitas terras, muitas delas que nos são trazidas pela mão ou pela pele de alguém.
~CC~

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Mais cidade que sexo

Há textos que deixam qualquer gordo satisfeito... Parabéns Samantha, o texto está... delicioso!

Terra

É bom enviar postais em férias, mas...as férias, interrompi-as hoje com carácter de urgência. Pedir os vistos, escrever Luanda no lugar de nascimento. Desde que chegou a indicação do voo nunca mais dormi da mesma forma. Há um atropelo de emoções que toma conta de mim e tenho receio do que eu própria sinto. Mas o medo maior ainda é não ir, falta tão pouco tempo e há tantas coisas que não tenho. De par com esse medo, quase em competição, a certeza desse destino anunciado há muito, a paz de o saber.

Nos momentos de maior lucidez preocupo-me com a missão, o trabalho que lá irei desenvolver. Mas os momentos sem essa lucidez são atravessados pela memória dos elefantes. Eles passam dentro dos meus olhos devagar, como num caminho pela Savana, vão em busca da água.
~CC~

Ir e voltar...


Ontem foi dia de regresso de um fim-de-semana prolongado um pouco diferente.
Fomos descobrir cidades onde as bicicletas têm direito a semáforo próprio.

Foram dias cansativos, mas cheios de experiências e paisagens que ficarão certamente nas memórias dos mais novos da família por muito tempo e que talvez regressem quando, sozinhos ou com os amigos, voltarem de mochila às costas.

Agora, é hora de descansar um pouco porque...
passar férias também cansa!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Apanhada pela Sombra*

Há dias que ando assim. Não muitos, porque a urgência de a consumir é grande. De me apossar da Sombra. São coisas que nos acontecem, quando pensamos que possuímos qualquer coisa, damos connosco consumidos, apropriados pelas coisas que queremos.

Foi o que me aconteceu com este livro. Devia estar avisada se tivesse estado atenta aos caracteres miudinhos (como nos contratos comerciais, ou nos das companhias de seguros, ou nas inúmeras advertências que nos fazem em sussurro e às quais não ligamos muito) impressos na capa “Uma história inesquecível sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros”. Ative-me só ao título, foi ele que me apanhou – acontece-me muito ficar presa a um bom título, mesmo que não conheça o autor – boa estratégia de marketing, sem dúvida.

Na verdade, não liguei muito aos segredos do coração e preferi deixar-me enfeitiçar outra vez, como de tantas outras vezes. Foi tiro certeiro, passou a povoar-me os sonhos e o sono, procuro a sua companhia em qualquer momento e ele lá está à minha espera, certo do sortilégio em que conseguiu enredar-me. Mas o autor também nos alerta para isso quando nos diz que os livros são espelhos para quem os lê…

Um dos meus personagens preferidos chama-se Fermín Romero de Torres e é da sua boca que saem estas frases:

O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.”p.241. Conhece bem a vida e as suas redes, feitas de nós e laços, o homem que escreveu estas palavras.

*Falo-vos d’A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, D.Quixote, 2004.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Postal de aniversário

Nascemos com laços.
Mas há laços que vamos perdendo e outros que amamos mais à medida que crescemos por dentro deles. Deixa que em cada dia dos teus anos te renove cada vez mais amada dentro dos meus abraços.
~CC~

domingo, 5 de agosto de 2007

Em boas companhias

…andámos nós, esta tarde, nos espaços exteriores do Centro Cultural de Belém. Uma grande Kumpania que fazia uma grande Algazarra. Puro divertimento o trabalho deles. Digo eu, que sou só consumidora. Mas fiquei com a impressão de que aqueles amigos gostam mesmo do que fazem. Por instantes julguei-me num ambiente “Kusturiquiano”, embora, a euforia dos músicos contrastasse com alguma modorra do público, difícil de aquecer neste fim de tarde de Agosto, demasiado fresco para a época.

Amanhã é dia de piscina. Aquela bela piscina da Rua de S.Bento. Das enormes vidraças o olhar consegue chegar ao céu e quando saímos há um odor doce que se desprende das tílias do jardim que a envolve.

Formiguinha

Tomar-me desta cor para poder passar o Inverno.
~CC~

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Portugal

Leio no Público de hoje uma reportagem sobre Torre Bela. Pergunto-me que país é este, capaz destas intestinas revoltas sem alicerces (talvez seja esse o problema; são revoltas, reformas, mas nunca revoluções) e que depois se refugia em condomínios fechados, fechando os olhos ao futuro que ficou/está por fazer. Deixo que a memória me leve até às falas do Príncipe de Salina...

País "ciclotímico", certamente, que exagera no fado como no fandango. Capaz da maior generosidade como do maior fechamento. Clausura, até, do respirar.

Impressiona-me uma frase de Camilo Mortágua, embora a situação descrita não seja nova (Manuel da Fonseca descreveu-a bem), "Os trabalhadores rurais ainda iam à praça. Juntavam-se no largo de Manique e os agrários iam lá contratá-los. Primeiro os mais possantes". Como gado, como escravos fora(?) do tempo, digo eu.

Leio ainda um dos títulos de 1ª página do DN "Empregos que portugueses não querem, legalizam imigrantes", a acompanhá-lo a fotografia de um menino negro com um ar bem disposto e um olhar cheio de promessas. Porquê, os portugueses são todos brancos? Indesejáveis desatenções nos tempos que correm.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

"Um comunista zen"

Se não fosse ela não o teria descoberto. Desatenções do passado que estalam como castanhas quentes nas voltas do presente. Mas tem valido a pena recuperar as desatenções e revelar-me o poeta. Um bom encontro. Há bocadinho, estávamos na cozinha a preparar o jantar e eis que chega um convidado pela mão, ou pela voz se preferirem, de Carlos Vaz Marques: Tonino Guerra. E que belo antipasti foi ouvir esta entrevista, feita em 2005 e agora reposta. Tendo em conta a hora, degustá-la talvez seja o termo mais apropriado.

Na minha memória “aprisionei” duas frases, só duas, mas é preciso ler os livros. Ora vejam lá se não são belas. A dada altura o jornalista pergunta-lhe o que é a poesia e ele responde mais ou menos isto “A poesia… é qualquer coisa trazida pelo vento” e, mais adiante a confissão “Eu amo as palavras, as palavras são um continente maior do que as imagens”.

E ele imagina tão bem.

Mathilde Santing

Gosto tanto desta voz! Quanta nostalgia ela transporta e se vai desprendendo a cada nota.

Dayton, Ohio -1903

Sing a song of long ago
when things were green
and movin’slow
and people’d stop tot say hello
or they’d say hi to you.
“Would you like to come over for tea
with the missus and me?”
It’s a real nice way
to spend a day
in Dayton, Ohio
on a lazy Sunday afternoon
in 1903.

Let’s sing a song of long ago
when things could grow
and days flowed quietly.
The air was clean
and you could see
and folks were nice to you.
“Would you like to come over for tea
with the missus and me?”
It’s a real nice way
to spend a day
in Dayton, Ohio
on a lazy Sunday afternoon
in 1903.
Mathilde Santing sings Randy Newman – Texas Girl & Pretty Boy, 1993

(Re)leituras de Verão

Há quem faça limpezas de Verão, eu gosto de fazer releituras.

Gosto muito de regressar aos livros de que gosto. Assim, como fazemos com os amigos que não vemos há muito tempo: pegamos no telefone e ligamos - "Então, há novidades?" - "Não, era só para saber de ti, se ainda estavas por aí"; - "Claro! Temos de nos encontrar um dia, mas fiquei contente por teres ligado"...e por aí adiante. Com os livros é parecido. Hoje apeteceu-me falar com (d)este:

"Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim como ao Orador amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz
?"

in, Mário de Carvalho, Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, Ed. Caminho, 1994

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Noites

Lua cheia, música muito bela, companhia. Verão 2007

Férias...*

Férias, definições mais ou menos consensuais:

1) dias de suspensão dos trabalhos oficiais;
2) folga;
3) descanso, repouso.

Primeiro dia, então, de "suspensão dos trabalhos oficiais".

Restam os oficiosos:
1) polir umas mesas antigas com uma moderna lixadora eléctrica;
2) retocar pinturas suspensas desde as últimas férias;
3) visitar exposições que ainda estejam à nossa espera
4) deambular pelos jardins da cidade
5) (re)buscar um tempo para amar
6) voltar a procurar o teu olhar e tentar descobrir brilhos antigos

Não me parece, pois, que seja lá um grande descanso, embora também não me canse. Talvez porque "quem corre por gosto não cansa".

*Em fundo, na telefonia sem fios, uma versão inglesa de Solo le pido a dios, que ouvi vezes sem conta na voz de Mercedes Sosa

Boas férias...