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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Não preciso...

Não preciso de copiar para aqui...

Porque podem ler directamente aqui!

domingo, 24 de agosto de 2008

Vá andando...

O que faz aqui?

Vá andando...

pois saiba que há poetas
que nos fazem descobrir
outros poetas e
poemas
de poetas
que ensinam poesia
e metáforas
a carteiros
que andam de bicicleta!

.
...
....
.....
...........

agora que voltou...
diga lá,
valeu ou não valeu a pena a viagem?

Já sabe,
sempre que não quiser ler nada aqui,
Vá andando!
para sítios onde a poesia é rainha.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Trás-os-Montes

Foto: João Torres, Agosto 2008


Trás-os -Montes!
Trá-los cá!
Longe que estou dessa terra
Traz-me o ar que há por lá
Mais um pouco dessa serra

Traz-me só um bocadinho
Desse cheiro a rosmaninho
Que cobre todo o planalto
Mais a voz quente e pausada
De uma avó de pau na estrada
A cantar canções ao alto

Montes de trás e da frente
Montes berço de uma gente
Que só há naquela terra
Quem me trouxesse esses nomes
Dava eu todas as fontes
De água pura que lá medra

Trás-os-Montes
Porque escondes
Essa terra, essa lonjura?
Medo?
Sei eu bem quê:
Que te desventrem a serra
À procura do filão
Donde brota esse quinhão
De alma grande, quente e pura.


Francisco Gouveia

PS. Obrigado Manuela pela partilha do poema!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

ALI

ali já mora gente à noite
ali dormem os dias
ali comem-nos os fins de semana
ali dançam empoladas as roupas nos estendais

ali vêm pôr os animais perdidos
cães e gatos de raça
aves exóticas embrulhadas em trapos
ali anda a publicidade com os mapas
vinda do longe da cidade
no voo de umas quantas motas

ali secam as flores ao jardineiro
contando-as de cuidados
as jornadas de dias anos inteiros

ali não se sonha dorme-se
fica-se de manhã nada se cobra aos dias
dorme-se e anoitece-se dormindo
ou contente com uma carta e medicamentos

ali ainda se ouve a memória
o apelo de uma casa
a fúria do buldozer
batanhando a toda a hora

dali partem dali chegam
familiares muitas vezes
cansados de alegrias
triste se doam a serviços
prestados às burguesias

José Ribeiro Marto
in , o longínquo privar dos dias , 20O5

sábado, 24 de maio de 2008

Uma outra estação

o Verão não
uma estação mais verde
a Primavera não
uma estação mais cedo
o Inverno sim
quente como um segredo
o Outono leve
um cacho de surpresas azul

outra estação
nas paredes da casa
reposta breve acesa
com telhados de grão
espanhando voos
aos pássaros de supetão
só eles dão sinais ao tempo
desafiando as gruas
amanhecendo cedo
sendo só o Verão
a mais pura estação

José Ribeiro Marto

sábado, 26 de janeiro de 2008

Mulheres fortes....

Há pouco, no MSN...

- Bonito poema, estava agora a ler...
- saiu-me agora mesmo...

Não resisto a trazer para aqui. Até porque foi escrito por uma das mulheres mais frágeis e simultâneamente mais fortes que conheço. É uma mulher moldada da "massa do rochedo". E é, sem dúvida, uma das "mulheres da minha vida".

Um beijo grande!

Mulher

Ser frágil
moldada da massa do rochedo,
à beira mar plantada
flor por "nasceres",
Como quem espera, da espuma
a carícia que te embale e te proteja!

Penélope, vais tecendo, com grãos de areia,
que escorrem entre teus dedos,
Um mundo, imaginário, porque só teu!

Ulisses, na sua viagem interminável, virá talvez...
num fragmento de luz
Sossegar teus medos
de te seres,
de te sentires,
Frágil
Mulher, apenas.

Clo

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Harmonia

A Clo disse que me enviaria um poema de Miguel Torga, hoje dia 17 de Janeiro. Disse-o ainda antes de ter a sua casa virtual onde, agora, também o poderia ter publicado.

Só quando li percebi porquê.
Obrigado.

Harmonia


Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta que
Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.

Miguel Torga

Poesia Volume.III - Biblioteca Miguel Torga - Planeta Agostini

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O teu riso

Ouvi agora o podcast do programa "O Amor é..." do professor Júlio Machado Vaz e Ana Mesquita.
O Júlio Machado Vaz leu, no fim do programa, este poema de Pablo Neruda. Mesmo não tendo acabado o curso de poesia não pude ficar indiferente.... O google fez o resto. Espero que não seja crime trazer palavras bonitas para sítios onde não são lidas!

O teu riso


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

"Um comunista zen"

Se não fosse ela não o teria descoberto. Desatenções do passado que estalam como castanhas quentes nas voltas do presente. Mas tem valido a pena recuperar as desatenções e revelar-me o poeta. Um bom encontro. Há bocadinho, estávamos na cozinha a preparar o jantar e eis que chega um convidado pela mão, ou pela voz se preferirem, de Carlos Vaz Marques: Tonino Guerra. E que belo antipasti foi ouvir esta entrevista, feita em 2005 e agora reposta. Tendo em conta a hora, degustá-la talvez seja o termo mais apropriado.

Na minha memória “aprisionei” duas frases, só duas, mas é preciso ler os livros. Ora vejam lá se não são belas. A dada altura o jornalista pergunta-lhe o que é a poesia e ele responde mais ou menos isto “A poesia… é qualquer coisa trazida pelo vento” e, mais adiante a confissão “Eu amo as palavras, as palavras são um continente maior do que as imagens”.

E ele imagina tão bem.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Herberto Helder*

Boa noite, a quem passa nesta cidade, acompanhado de poesia.

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
(...)

Herberto Helder,Poesia Toda,Assírio & Alvim,1979

*Transcrito ao som de Danilo Perez, Alfonsina y el mar

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Mais um Mário Benedetti

Este foi-me oferecido há muitos anos. Aprisionei-o e ele a mim. De vez em quando deixo-o sair. Ofereço-o a quem passa e a quem acho que poderá guardá-lo e oferecê-lo outra vez. Assim, numa contínua cadeia de trocas. De afectos. Leiam-no bem e partilhem-no.

TÁCTICA Y ESTRATEGIA

Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos
mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible
mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo
ni sé con qué pretexto
pero quedarme en vos
mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos no haya telón
ni abismos
mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo
ni sé con qué pretexto
por fin me necesites.
Mario Benedetti, Poeta Uruguaio