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terça-feira, 9 de outubro de 2007

9 de Outubro de 2003


Há quatro anos atrás entrou na minha vida uma luz renovada, pequenina, intensa e brilhante. A alegria reencontrada de ser mãe pela segunda vez. Dores renovadas de parir e o prazer de cheirar aquele cheiro interior. Íntimo. Único. Um calor húmido e diferente de tudo.
Nada é comparável a estas vivências, a esta intensidade, a este desafio. Que bom elas existirem na minha vida. Ramos de árvore apontados para o céu.

sábado, 22 de setembro de 2007

Um passo atrás do outro

Vida secreta. Vidas secretas que todos temos. Inconfessáveis, inaudíveis, sussurrantes, invisíveis. Tudo isso. Desejos que esmorecem e se apagam como velas sopradas por vendavais. Outros que frutificam desenhando árvores férteis, frondosas, generosas.




Jacques Brel _ La Chanson des Vieux Amants

Mas, nem sei porque escrevo tudo isto. O propósito inicial era partilhar uma ou duas frases da Vie Secrète de Pascal Quignard.

"Il y a dans toute passion un point de rassasiement qui est effroyable (...) Ou bien l'amour surgira de la passion, ou il ne naîtra jamais" (in Vie Secrète, Pascal Quignard, Gallimard, 1998)

domingo, 9 de setembro de 2007

Silêncio

As palavras sobram. Acabou-se a conversa. Acabaram-se os temas de conversa e agora é o silêncio que nos cala e apela à revelação das promessas de um olhar.

Mergulhar por dentro do outro é soltar amarras de nós, deixando-nos levar por ventos que sopram mansos e trazem histórias de búzios e sereias.

É o desejo que nos cala porque o único murmúrio (com)sentido é o dos sentidos em vertiginosa urgência.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

10 Anos*

Quantas mães e quantos pais já escreveram, sentiram, pensaram ou disseram o mesmo que eu escrevo hoje ao ver crescer um filho ou uma filha? Não importa. É a vida que se renova em cada um de nós. E de uma maneira ou de outra vamo-nos revelando em cada respirar, em cada sentir.

Há dez anos atrás eu era outra. Pior, julgo. Menos generosa, menos desprendida, menos preparada para os outros. Primeira filha, primeira vez mãe. Um frio no estômago trazido pelo medo de falhar, de não estar à altura. Mas o amor pode tanto que me assombro. Uma assombração feita de luz e pó de estrelas.

Olho-a e vejo a promessa de uma bela mulher, mas no fundo dos meus olhos, bem lá no fundo, lá onde o olhar conflui com as linhas do coração, não deixarei nunca de vê-la como aquela bebé pequenina e enrugada que saiu de mim. O cheiro dela, não esquecerei nunca. Os sustos, as angústias, as saudades quando não está, estando sempre de qualquer modo. A cumplicidade que começa a despontar e o profundo encontro na troca de olhares. As confidências, os medos, a confiança dia-a-dia construída. Um caminho. Uma linha de traços descontínuos. Como a vida. As zangas, as discussões e depois os abraços profundamente sentidos, as lágrimas de alegria saídas daquele olhar de veludo, quando a paz regressa. A normalidade reposta. Não no sentido em que se cumprem normas, mas no sentido do respirar, do pulsar cadenciado dos sentimentos suaves, que têm por lastro fortes nós que nos unem.

Hoje é o teu dia, parabéns e obrigada por existires assim, tal como és.




*Escrito ao som de The Köln Concert de Keith Jarrett, (1975)

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Chasser la haine

Escuto também palavras antigas. Estas são belíssimas na sua dor, na sua verdade cruel, na sua actualidade. Françoise Hardy di-las tão bem, semeia-as com a sua voz encantada, como se tivesse perdido todos os mortos do mundo e por aqui expulsasse o ódio, exorcisasse a dor.

Un homme est mort

un homme est mort
en parler ne sert à rien
le crime ignore
tout du mal et tout du bien…
le monde dort
vaincu par la peur, la faim
un homme est mort
on l’enterrera demain…

un jeune homme, un enfant
couché pour toujours
les yeux fixes vers le ciel
hier encore vivant
fauché en plein jour
tué par la haine
tué par la haine…

des cris, des pleurs
des discours vite oubliés
comme les fleurs
qui vont bientôt se faner
sur la douleur
de toutes ces vies volées
de tous ces coeurs
que le destin a brisés…

ma petite ou mon grand
couchés à jamais
je voudrais tant croire au ciel
mon amie, mon amant
oh comme je voudrais
chasser la haine
chasser la haine

juste un homme, un enfant
j’appelle au secours
les yeux tournés vers le ciel
qu’il nous dise comment
retrouver l’amour
chasser la haine
chasser la haine

Françoise Hardy, Clair-Obscur, 2000

segunda-feira, 16 de julho de 2007

homens voadores


Penso no amante de Lady Chaterly. Vejo-o a pendurar flores pequeninas e brancas no corpo nu dela. Imagino o cheiro a terra e a água. Sentimos o sorriso que lhes chega depois do prazer intenso. Chega pelas flores nos corpos nus.

Vejo os homens que vão buscar as estrelas nas noites grandes de Verão e depois as poisam sobre a pele das mulheres. E as estrelas fazem-nas brilhar no escuro. E elas brilham tanto que a própria lua se ofusca com a sua luz.

Vejo os homens com pensamentos voadores cujos pés mal tocam o chão e cujos abraços são doces como os dos anjos quando eles descem à terra.

Vejo que se estas imagens permanecessem no olhar, seria lugar de ficar.

~CC~