Sempre que vou lá sinto-me com asas. Gosto sempre dele, são ímpares as cores na Primavera e lânguidos os dias de Outono, mas prefiro ir no Verão. É o calor que me faz sentir viva. Faz-me sentir até os ossos e o sangue a latejar. A imensidão da planície convida à evasão. Descontamina-me, descomprime-me da pressão citadina. Como se rodasse sem destino, ou como se o destino estivesse longe, lá longe no horizonte distante.
Saí cedo rumo a Portalegre. A manhã estava fresca em Lisboa, uma frescura apaziguadora e convidativa a viagens. Ponte Vasco da Gama e a travessia sobre as águas. Quase bíblica. Bela esta Ponte. Abstracção feita ao que deixamos para trás. Não nos engrandece a densidade imobiliária e o frenesim especulativo.
Rapidamente entramos em paisagens menos densas, mais livres. Vemos as cegonhas, eternas e mágicas cegonhas. Rebanhos de cabras e ovelhas e manadas de vacas. As garças fazem-lhes companhia.
Antes de partir, ainda tive tempo de ler, num relance, o texto que Manuel Alegre escreve hoje no Público. Acho-o corajoso e, sobretudo, necessário. É importante não esquecer o que ele diz. Resta saber se o nível de consciência colectiva está receptivo a esta mensagem. Ele sabe do que fala e nós também. Tenho 43 anos e não vivi directamente os efeitos da Ditadura, do medo, da delação. Uma certeza: vivemos todos em diferido (33 anos depois) esses mesmos efeitos como se fosse uma segunda natureza. Regresso a José Gil*. Relê-lo nestes tempos será de grande utilidade.
A recusa teima, então, em instalar-se. O Alentejo é simbólico para mim. Palco de grandes resistências, de grandes recusas, de grandes enfrentamentos à Ditadura. Tudo se mistura num misto de ansiedade, perplexidade, recusa e profunda vontade de abanar os que se deixam embalar, ritmados por “choques tecnológicos”.
Fecho os olhos e chegam-me como néons as palavras de Alexandre O’Neill. Sarcásticas, certeiras. E com elas vos deixo:
“- Neste país em diminuitivo**…
- Respeitinho é que é preciso”
Saí cedo rumo a Portalegre. A manhã estava fresca em Lisboa, uma frescura apaziguadora e convidativa a viagens. Ponte Vasco da Gama e a travessia sobre as águas. Quase bíblica. Bela esta Ponte. Abstracção feita ao que deixamos para trás. Não nos engrandece a densidade imobiliária e o frenesim especulativo.
Rapidamente entramos em paisagens menos densas, mais livres. Vemos as cegonhas, eternas e mágicas cegonhas. Rebanhos de cabras e ovelhas e manadas de vacas. As garças fazem-lhes companhia.
Antes de partir, ainda tive tempo de ler, num relance, o texto que Manuel Alegre escreve hoje no Público. Acho-o corajoso e, sobretudo, necessário. É importante não esquecer o que ele diz. Resta saber se o nível de consciência colectiva está receptivo a esta mensagem. Ele sabe do que fala e nós também. Tenho 43 anos e não vivi directamente os efeitos da Ditadura, do medo, da delação. Uma certeza: vivemos todos em diferido (33 anos depois) esses mesmos efeitos como se fosse uma segunda natureza. Regresso a José Gil*. Relê-lo nestes tempos será de grande utilidade.
A recusa teima, então, em instalar-se. O Alentejo é simbólico para mim. Palco de grandes resistências, de grandes recusas, de grandes enfrentamentos à Ditadura. Tudo se mistura num misto de ansiedade, perplexidade, recusa e profunda vontade de abanar os que se deixam embalar, ritmados por “choques tecnológicos”.
Fecho os olhos e chegam-me como néons as palavras de Alexandre O’Neill. Sarcásticas, certeiras. E com elas vos deixo:
“- Neste país em diminuitivo**…
- Respeitinho é que é preciso”
In, Poemas com endereço, Morais Editora, 1962
*Portugal hoje, o medo de existir.
**É mesmo assim que está grafado


