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sábado, 18 de agosto de 2007

Agosto


Agosto. O meu e o dos outros. Este "outro" é muito especial. Pelo menos para mim. Gosto muito de lê-lo, de (re)encontrá-lo a cada livro que escreve.

"...Tu nem sequer imaginas como podem acabar subitamente certos Agostos que esbarram contra um Setembro temporão, como um automóvel contra uma árvore, e se encarquilham, esmorecem como uma concertina sem fôlego. Tanta bazófia na canícula da Assunção ou quando o céu nocturno solta os fogos-de-artifício de São Lourenço e os sentidos parecem tão repletos e a vida uma caverna de abóbadas altíssimas, quatro gotas de chuva, porém, o tempo de um corisco, e basta um só dia para engolir esse mês inchado e convencido... A vida também é assim, é como Agosto, dás-te conta que se finou num abrir e fechar de olhos, quando menos esperas, o elástico encolhe e nunca mais voltará a esticar(...)"p.53


Antonio Tabucchi, Tristano Morre - Uma vida, D. Quixote, 2006

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Ir e voltar...


Ontem foi dia de regresso de um fim-de-semana prolongado um pouco diferente.
Fomos descobrir cidades onde as bicicletas têm direito a semáforo próprio.

Foram dias cansativos, mas cheios de experiências e paisagens que ficarão certamente nas memórias dos mais novos da família por muito tempo e que talvez regressem quando, sozinhos ou com os amigos, voltarem de mochila às costas.

Agora, é hora de descansar um pouco porque...
passar férias também cansa!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Apanhada pela Sombra*

Há dias que ando assim. Não muitos, porque a urgência de a consumir é grande. De me apossar da Sombra. São coisas que nos acontecem, quando pensamos que possuímos qualquer coisa, damos connosco consumidos, apropriados pelas coisas que queremos.

Foi o que me aconteceu com este livro. Devia estar avisada se tivesse estado atenta aos caracteres miudinhos (como nos contratos comerciais, ou nos das companhias de seguros, ou nas inúmeras advertências que nos fazem em sussurro e às quais não ligamos muito) impressos na capa “Uma história inesquecível sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros”. Ative-me só ao título, foi ele que me apanhou – acontece-me muito ficar presa a um bom título, mesmo que não conheça o autor – boa estratégia de marketing, sem dúvida.

Na verdade, não liguei muito aos segredos do coração e preferi deixar-me enfeitiçar outra vez, como de tantas outras vezes. Foi tiro certeiro, passou a povoar-me os sonhos e o sono, procuro a sua companhia em qualquer momento e ele lá está à minha espera, certo do sortilégio em que conseguiu enredar-me. Mas o autor também nos alerta para isso quando nos diz que os livros são espelhos para quem os lê…

Um dos meus personagens preferidos chama-se Fermín Romero de Torres e é da sua boca que saem estas frases:

O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.”p.241. Conhece bem a vida e as suas redes, feitas de nós e laços, o homem que escreveu estas palavras.

*Falo-vos d’A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, D.Quixote, 2004.

domingo, 29 de julho de 2007

Dia de festa....

Sábado foi dia de festa... Não por virem cantores do mundo a Sines, e as ruas estarem cheias de gente, mas porque alguma dessas pessoas que ajudavam a encher as ruas de Sines, serem família e amigos.

Sábado foi dia de assar sardinhas e febras para 15 pessoas, dar uns mergulhos na piscina e por a conversa em dia com a mana velha (que não o é assim tanto!)

Sábado foi dia de levar a sobrinha, com quem andei ao colo há bem pouco tempo, ver e ouvir grupos que só ela conhece.

Sábado foi dia de tentar jantar em Sines e só conseguir comer umas bifanas servidas por uma linda menina, com sotaque de leste, cabelos loiros e uns lindos olhos...

Sábado... foi um grande dia!

(*) As casinhas ali em cima estavam no parque de merendas, em Santiago do Cacém, onde sábado passámos a tarde...

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Notícias do sul (III)....

Ontem fomos ainda mais para sul, para ver peixes e aves...
À noite a Internet não funcionava aqui na varanda...
Fui mesmo enganado pelo mercador da praça...
Mas, hoje funciona, e já lhe perdoei...
Até porque é um mercador alentejano com cara de boa pessoa!

Lindos poemas que vão colocando por aqui as parceiras...
Até logo... se as tecnologias não voltarem a falhar!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Notícias do sul (II)....


Aqui estou outra vez, na varanda, e ler o que pouca mais gente lê... Embora poucos tenho a certeza que são bons e generosos porque até nos vão dando prémios (obrigado Teresa) e voltando para mais uns dedos de conversa.

As férias estão mesmo a chegar e é delas também que a Carla e a Cristina nos falam... Fico agradecido ao mercador da praça central que me vendeu caro um serviço que nem sempre funciona mas que, mesmo assim, me permite, à noite, passar por aqui.

Esta tarde comi um gelado, embora nem fosse de baunilha nem caseiro! Tive notícias de visitas de família para este fim-de-semana...

Amanhã rumo ainda mais a sul à procura de um dia cheio de aventuras com a pequenada...

Boa praia com ou sem bolas de berlim!

Mamã dá licença?

Lembro-me bem deste jogo porque sempre me pareceu ferido de lógica e impossível de ter sido inventado por crianças. Reparem que quando estamos quase a chegar, traídos por um pequeno movimento, somos descobertos e voltamos para trás. Este retrocesso ao lugar de partida sempre me deixou de rastos. Pensava: agora vou ter de percorrer todo o caminho outra vez e quando estiver quase a chegar volto novamente para trás. Um adulto, foi um adulto que inventou esta maldade. Mas a verdade é que as crianças jogavam a isto na maior parte das vezes com prazer. Eu também se não me pusesse a pensar na lógica dos próprios jogos, o que me fazia perder mais vezes. Mais tarde tornei-me veloz nas corridas e quase alcancei grandes vitórias no corta mato, acho que pela ideia de que podia ir sempre em frente, de pouco me importar com a distância a que a meta estava, podia correr até ela.


Penso nisto por causa das férias e de uma das coisas que dentro delas me causa maior prazer:deixar-me estar na praia até o sol se despedir e ver a lua a ganhar o seu lugar de luz. Já alguma vez repararam na cor que a espuma ganha nessa altura? Chegam as gaivotas pouco a pouco ganhando cada lugar que uma criança deixou. Faz-se silêncio e podemos escutar novamente as ondas. O jantar pouco importa, qualquer coisa se arranja.


E quanto mais penso nesta imagem da praia mais ela foge de mim como no jogo da mamã da licença. Afinal talvez ele tivesse uma função na minha vida, preparar-me para esta espera, para dizer "ganhei" numa recta mais difícil, a recta de avanços e recuos, recta de ir e vir.

Agora é que era mesmo ir e ir e ir pelo crepúsculo de Verão.


E também por causa bolas de berlim, são lindas as bocas crianças cheias de açucar e fantásticos os mergulhos que dão em plena rebentação.
~CC~

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Notícias do sul....


Cheguei ao meu refugio no sul para passar uma semana...
Um mercador, que montou uma banca na praça central, disse que me podia vender um pouco de Internet que utilizaria em minha casa...
Aqui estou eu, ao fresco, na varanda, a mandar um postal do Alentejo que também tem mar...
Se isto se aguentar virei aqui para ler um pouco todos os dias... e continuar o meu curso de poesia (agora exclusivamente a distância)

Abraços do sul

Apontamentos do tempo das uvas


1. Nestes últimos tempos tenho ocupado os meus dias a engavetar ideias passadas e a passar a limpo esboços projectados no futuro. Peças de puzzles que quero vir a construir. A minha (nossa) “casa virtual” não me tem visto muito. Entro e saio de mansinho, sem grande alarido. Busco um novo tempo para degustar prazeres antigos. Ler é um deles. Não falo das leituras obrigatórias que nos embrutecem com a sua esterilidade, falo das fecundas, das que nos lançam redes encantatórias, das que não nos dão son(h)os sossegados, das que nos fazem olhar a Lua (como agora estou a fazer, porque ela postou-se mesmo em frente da minha janela, acho que quer que a olhe, que a admire) e pensar se é mesmo verdade que nos faz amar e desamar de acordo com as suas forças. Para a minha mãe o meu mau humor sempre se deveu à Lua. Só não percebi a que fase.

Leio As mulheres do meu pai e gosto. Há um enredo de lugares e personagens feito, que me agrada. Estou quase no fim, mas voltei atrás para vos mostrar estes pedacinhos:

A verdade é uma velha senhora chata, estúpida e inconveniente. Além de surda, surda não como as portas, que as há bastante atentas, e olha que não são poucas, mas como Deus, a quem todos suplicam e que não ouve ninguém.
(…) A verdade é um recurso de quem não tem imaginação (…) há verdades pérfidas e mentiras benévolas. A vida não é cinzenta nem cor-de-rosa. Depende das lentes com que olhamos para elas
.” José Eduardo Agualusa, As mulheres do meu pai, D. Quixote, 2007, pp. 280-281

Sempre me ensinaram a dizer a verdade. Plana, sem artifícios. Cresci a interrogar os malefícios de algumas verdades e a sentir na pele os efeitos de as dizer. Mas, afinal, também cresci longe das mentiras que podem ser as fantasias, os artefactos, a imaginação. Interrogo hoje a educação que recebemos de verdades feitas para os outros.

2. A escola. Entrei nela aos seis anos e nunca mais de lá saí. Às vezes penso-me como um peixe num aquário que morreria se o pusessem num lago (triste, mas verdadeiro). Um universo permanente na sua força transformadora, mas que tem vindo a perder o encanto da Lua. O veredicto escolar esmaga os que não conseguem chegar à meta. Como se pudesse haver uma única! O fim do ano lectivo é sempre tempo de balanços e avaliações. É com algum desprazer que aqui chego. Acho que o valor de quem quer que seja não se esgota num número aposto numa pauta. Reflicto, então, sobre o que lhes fica, aos estudantes, ao fim de mais um ano, que pedaços de mim fizeram sentido para eles, que pedaços deles fizeram sentido para mim. O imenso prazer de partilhar o que julgo saber e de aprender o que eles tiverem para me ensinar, está muito além do que é visível. Como se fossem faróis apontados lá para longe. Um longe largo, feito dos caminhos possíveis. As suas vidas.

3. Comi hoje as primeiras uvas. Não me imagino a ter nascido fora d'A Minha estação preferida. Longe da força trazida pela terra na sua generosa dádiva estival. Não poderia ter nascido noutra, não teria sobrevivido.

Bom Verão a todos os que passarem por aqui e aos outros.