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segunda-feira, 30 de julho de 2007

Homens tristes com música

Naquela manhã tinha acordado a ouvir dentro de si a "Paixão Segundo S. Mateus" de J.S.Bach. Achava mesmo que tinha sido despertado por ela. Levantou-se, abriu a janela, inspirou os primeiros odores da manhã e saudou o gato cinzento de olhos verdes que se espreguiçava em cima do telhado da casa da vizinha, afagado pelos primeiros raios de sol. Invejou-o. De certeza que ele, o gato cinzento de olhos verdes, não tinha despertado com aquelas notas belas e tristes.

Julgou, então, ter encontrado a chave para aquela indizível tristeza que o acompanhava havia já algum tempo. As músicas que ouvia ultimamente eram tristes, todas elas escolhidas por serem tristes. Sabendo-se tão permeável aos sons, não podia continuar naquele trilho lento e arrastado por muito mais tempo. Precisava de deixar sair aquele torpor provocado pela tristeza.

Procurou na estante dos CD's e encontrou-a, e foi a ouvir aquela voz sussurrada e quente que entrou na banheira:

April skies are in your eyes
But darling, don't be blue
Don't cry,
Oh honey please
Don't be that way
Clouds in the sky
Should never make you feel that way
The rain
Will bring the violets of may
Tears are in vain
so honey please don't be that way
(...)

Ella Fitzgerald

terça-feira, 17 de abril de 2007

Homens tristes IV

Mas este eu não conheço. Embora também me pareça que acabou tudo bem para ele...

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Homens tristes III (e por agora chega.)

Anos e anos a ouvir que os homens não choram. Anos e anos a receber carinho só da mãe. Ao pai, que também tinha ouvido a mesma história, cabiam os ralhos e os castigos. Anos e anos a perder-se nos labirintos da tristeza sem encontrar o caminho de saída.
Um dia, já crescido, frente à televisão, vê um anúncio a máquinas de lavar. Fabuloso, a preto e branco. Em primeiro plano, um homem lindo segura, com desvelo e um olhar transbordante de ternura, um bébé igualmente lindo. Ao fundo uma máquina de lavar em funcionamento e a frase "Ter tempo para as coisas importantes".
Quis ser assim como o homem do anúncio. Quis, assim, experimentar a leveza da ternura. Quis, assim, afastar as cortinas da tristeza e espreitar ao postigo da claridade alegre e colorida.
Anos mais tarde soube que um grupo de mulheres (daquelas que acham que a ternura e a sensibilidade são monopólio feminino) se tinha insurgido contra o anúncio e resolveu responder-lhes, através de todas as outras com quem se cruzou na vida, com um sorriso desarmante e uma ternura desmedida que tinha encontrado poiso nos filhos então nascidos.

domingo, 15 de abril de 2007

Homens tristes II

Tinha chegado aos 50 anos sem filhos. Durante anos e anos tinha devorado paixões como quem come gelados. Por volta dos 40 achou que aquela seria a derradeira e entregou-se inteiro. Lia-lhe os manuscritos dos romances que ela escrevia, trabalhava-os, devolvia-lhos mais nítidos. A promessa implícita de que um dia também ela se lhe entregaria inteira. Filhos? Não, era melhor assim enquanto ela não assentasse e tinham mais tempo para estarem os dois. Aquiescia de cada vez que ela tentava demovê-lo dessa ideia, sabendo que o tempo passava e que seria cada vez mais difícil gerir fraldas e biberões e noites sem dormir... Ela continuava o ofício de escrevinhadora e um dia anunciou-lhe a partida. Velho demais para ela, queria ser livre e com ele não podia. Refez-se lentamente do golpe, voltou a desenhar para crianças e foi encontrando por aí um pouco da luz que sabia perdida, levada nos olhos dela.

sábado, 14 de abril de 2007

Homens tristes I

Camadas e camadas de tristeza pesavam-lhe nos dias mais cinzentos. Decidiu começar a despir-se. A Primavera ameaçava chegar, com avanços e recuos, mas ia chegando. Gostou da leveza, mas sempre temia que uma aragem mais brusca entrasse por uma ferida menos cicatrizada. Ainda assim, escolheu a leveza. As lágrimas que se soltavam em algumas noites de insónia ajudavam a lavar a alma e a pouco e pouco lá se ia descobrindo o colorido de risos antigos e de memórias felizes, como frescos recuperados, que teimavam em irromper pela bruma dos dias menos alentados. Às vezes, a fixação no passado triste impedia que os dias presentes lhe chegassem límpidos e brilhantes de sol e flores e não o deixavam seguir os trilhos por vir. Decidiu fazer uma promessa às flores: nunca mais as deixar morrer. Decidiu fazer-se uma promessa: nunca mais se deixar vencer, nunca mais deixar de tentar sorrir.