Ir à terra significa, para todos os que não nasceram nas grandes cidades, voltar à aldeia onde nasceram ou viveram a infância. À medida que o tempo passa, e que as pessoas que nos esperavam na terra vão partindo, vamos invariavelmente regressando com menos frequência. No entanto, sentimos que seremos sempre de lá. Não sabemos bem porquê e, muitas vezes, nem percebemos o que realmente nos liga a esses lugares. Serão as recordações dos que partiram para sempre deixando aí muito do que a eles nos ligava ou serão simplesmente os lugares, as plantas o ar?
A minha terra é um pequeno lugar na serra de Bornes. Chama-se Covelas, terra fria e com grandes castanheiros. Pertence a uma freguesia chamada Sambade no concelho de Alfândega da Fé, em Trás-os-Montes.
Penso que sempre serei de Covelas, mesmo que tenha vivido lá apenas alguns anos. É para lá que vou dentro de dias, reencontrar tudo o que me liga aos que já partiram mas também rever alguns familiares que, este ano, não vi tanto como gostaria.
(*) Raul Coelho é a pessoa que conheço que melhor consegue captar as paisagens e as gentes de Trás-os-Montes com uma máquina fotográfica. Podem ver o seu trabalho em (http://olhares.aeiou.pt/utilizadores/detalhes.php?id=5674)
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quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Terra (II)
Esta é também a minha terra, achei-a asim tão bem descrita por este rapaz que se dedica ao mel e que não conheço. E senti-a assim batida pelo vento forte de cheiro a maresia, demorei muito a gostar dela. Amei-a nas palavras de um avô que recitava António Aleixo e coleccionava vasos de cravos e cravinhos cujas cores estudava e inventava pela intuição da química. Vivia a sonhar a revolução que já tinha afinal chegado. Mestre terra, de olhos salgados e poucas falas. O mais improvável que podia acontecer era o nosso encontro, o do mestre a despedir-se da vida activa e da criança triste, sem norte. Mas aconteceu, ensinou-me a gostar de laranjas e de xarém e fez-me sentir que eu era mais que um nada, se quisesse, podia ser quase uma flor. Era o que eu precisava para seguir o caminho.
Depois a vida levou-me para longe dele mas sei que andou de bicicleta até morrer e cuidou sempre dos seus cravos.
Nós somos muitas terras, muitas delas que nos são trazidas pela mão ou pela pele de alguém.
~CC~
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quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Terra
É bom enviar postais em férias, mas...as férias, interrompi-as hoje com carácter de urgência. Pedir os vistos, escrever Luanda no lugar de nascimento. Desde que chegou a indicação do voo nunca mais dormi da mesma forma. Há um atropelo de emoções que toma conta de mim e tenho receio do que eu própria sinto. Mas o medo maior ainda é não ir, falta tão pouco tempo e há tantas coisas que não tenho. De par com esse medo, quase em competição, a certeza desse destino anunciado há muito, a paz de o saber.
Nos momentos de maior lucidez preocupo-me com a missão, o trabalho que lá irei desenvolver. Mas os momentos sem essa lucidez são atravessados pela memória dos elefantes. Eles passam dentro dos meus olhos devagar, como num caminho pela Savana, vão em busca da água.
Nos momentos de maior lucidez preocupo-me com a missão, o trabalho que lá irei desenvolver. Mas os momentos sem essa lucidez são atravessados pela memória dos elefantes. Eles passam dentro dos meus olhos devagar, como num caminho pela Savana, vão em busca da água.
~CC~
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