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sábado, 1 de novembro de 2008

Finados

Um dia todos descansaremos em qualquer lugar...
Dependendo das circunstâncias e das crenças de cada um,
poderemos escolher, ou deixar que escolham por nós,
onde o nosso corpo descansará para sempre...

A mim, agrada-me a ideia de voltar às origens...

Lá onde os cemitérios estão no meio dos soutos e
têm vista para os castanheiros!

Lá onde, há mais de uma década, a minha mãe descansa também...

Embora saiba de cor os versos de Fernado Pessoa, que a minha irmã escolheu, hoje não estive lá para os ler.

No entanto continuo a acreditar no Poeta.

A morte é a curva da estrada,
morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
existir como eu existo.

Fernando Pessoa

Descansa em paz

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Fim-de-semana especial...

A neve já tinha quase desaparecido .
Estava agora apenas em cima das amendoeiras, como que por magia.

A lareira, desta vez, era a mesma e as alheiras, que assámos quando a noite chegou, tinham sido enchidas pelas mãos da irmã da nossa mãe.
Tinham o mesmo sabor ou, pelo menos, tinham o sabor que penso que tinham as que, todos os invernos, também ela fazia.

Os grelos de nabal, que sempre disse picarem na língua, estavam agora óptimos acompanhados de batatas e azeite.

O folar, que comemos ainda quente, tinha sido amassado pelas mãos amigas e generosas de quem, naquela pequena aldeia de Trás-os-Montes, foi amiga da nossa mãe e com ela aprendeu a amassar estes bolos recheado de carne.

Tudo esteve óptimo nesta curta viagem ao passado com o meu pai e as minhas duas irmãs.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Continente de afecto



Há na minha família, que alguns dos meus colegas psicólogos chamariam disfuncional por ser um arquipélago de afectos em vez de uma estrutura hierárquica de poder, um amor constantemente posto à prova. A vida tem colocado pedra sobre pedra em cada um dos nossos caminhos ou mesmo no trilho comum. Por vezes achamos que poderemos repousar, mas nunca é assim, há sempre qualquer luta a travar. E de cada vez que isso acontece, este amor sai renovado, reforçado, sempre maior e diferente, acompanhando o crescimento de cada um de nós. É por vezes um amor conflitual, o que lhe dá a a textura das coisas reais e o afasta do perfume etéreo de certas famílias perfeitas. No entanto é, na sua imperfeição, a minha família perfeita.


Ontem a irmã mais nova, uma sobrevivente, cuja gravidez de alto risco escondia uma luta pela sua própria vida uns anos antes, conseguiu aumentar a minha família com a gente mais pequena que alguma vez vi: um menino com apenas 673g, menos peso que um pacote de leite. Impressiona a sua imagem de fragilidade, mas a minha filha, a segunda a vê-lo por se ter intitulado com toda a sua esperteza como mana dele, disse apenas: é tão bonito! E aquela alegria dela fez brilhar mais os olhos da minha irmã.

Na Indía nasceu a mais velha cujo aniversário se comemora hoje, trouxe para sempre com ela a pimenta e a canela e com elas na pele tem enchido a nossa vida. Nunca se deve deixar de dizer a alguém o quanto é importante para nós, mesmo que essa pessoa já o saiba, é isso que faço agora.

Todos os outros são únicos em beleza e singularidade, mas hoje escolho estas duas para exprimir o meu amor. Se mais não houvesse, já me servia para isto este "ninguém lê".

~CC~

domingo, 15 de julho de 2007

Lógicas...

Depois de quinze dias de praia, as meninas regressam a casa. O quarto foi remodelado, está mais espaçoso e com mais luz, agora têm um beliche. Dizem que lhes faz pensar em aventuras...

Com elas regressa um dos rituais preferidos: o pequeno-almoço à mesa, todos juntos, e as conversas de início de dia. Às vezes contam os sonhos que tiveram, outras relatam o que ficou por contar na noite anterior, outras ainda fazem projectos para o dia. Hoje foi assim:

B. (quase 10 anos): Mãe o que é que aconteceu, a mesa está mais baixa?

Mãe: O que aconteceu é que tu cresceste nestes quinze dias, mesmo sem teres dado por isso, e a mesa parece-te mais baixa.

B.: Cresci?!

C. (quase 4 anos): Sim mana, cresceste mas sem fazer anos. Percebeste?