quarta-feira, 25 de julho de 2007

Alentejo

Foto: BSP

Sempre que vou lá sinto-me com asas. Gosto sempre dele, são ímpares as cores na Primavera e lânguidos os dias de Outono, mas prefiro ir no Verão. É o calor que me faz sentir viva. Faz-me sentir até os ossos e o sangue a latejar. A imensidão da planície convida à evasão. Descontamina-me, descomprime-me da pressão citadina. Como se rodasse sem destino, ou como se o destino estivesse longe, lá longe no horizonte distante.

Saí cedo rumo a Portalegre. A manhã estava fresca em Lisboa, uma frescura apaziguadora e convidativa a viagens. Ponte Vasco da Gama e a travessia sobre as águas. Quase bíblica. Bela esta Ponte. Abstracção feita ao que deixamos para trás. Não nos engrandece a densidade imobiliária e o frenesim especulativo.

Rapidamente entramos em paisagens menos densas, mais livres. Vemos as cegonhas, eternas e mágicas cegonhas. Rebanhos de cabras e ovelhas e manadas de vacas. As garças fazem-lhes companhia.

Antes de partir, ainda tive tempo de ler, num relance, o texto que Manuel Alegre escreve hoje no Público. Acho-o corajoso e, sobretudo, necessário. É importante não esquecer o que ele diz. Resta saber se o nível de consciência colectiva está receptivo a esta mensagem. Ele sabe do que fala e nós também. Tenho 43 anos e não vivi directamente os efeitos da Ditadura, do medo, da delação. Uma certeza: vivemos todos em diferido (33 anos depois) esses mesmos efeitos como se fosse uma segunda natureza. Regresso a José Gil*. Relê-lo nestes tempos será de grande utilidade.

A recusa teima, então, em instalar-se. O Alentejo é simbólico para mim. Palco de grandes resistências, de grandes recusas, de grandes enfrentamentos à Ditadura. Tudo se mistura num misto de ansiedade, perplexidade, recusa e profunda vontade de abanar os que se deixam embalar, ritmados por “choques tecnológicos”.

Fecho os olhos e chegam-me como néons as palavras de Alexandre O’Neill. Sarcásticas, certeiras. E com elas vos deixo:

“- Neste país em diminuitivo**…
- Respeitinho é que é preciso”

In, Poemas com endereço, Morais Editora, 1962


*Portugal hoje, o medo de existir.
**É mesmo assim que está grafado

2 comentários:

CCF disse...

Como sabes, desde sempre que a liberdade esbarra com o poder, mesmo em Democracia e são as formas mais subtis de exercer o poder as piores, neste sentido a Democracia pode enganar-nos muito quando ergue uma bandeira que depois não consegue sustentar.Mas tenho dúvidas sobre algumas das vozes que agora se erguem a proclamar a liberdade quando antes também manipularam sem vergonha.
O melhor mesmo são os coentros, as cabras, o céu imenso, o melhor modo, quanto a mim, de resistir.
~CC~

Cristina GS disse...

Cara CC, eu também repudio a manipulação, mas não sei se estamos a falar do mesmo. Tenho, como sabes, uma grande resistência a uma certa forma de fazer política, mas tenho tudo pela liberdade de expressão, pelo "dizer puro" quanto baste. Suporto mal alguns simulacros da política mesquinha. Entendo mal que os políticos (quase todos os que conheci, e não são poucos, como também sabes) não olhem os outros nos olhos, embriagados que estão com as suas verdades, com as suas visões. Mas não faz mal nenhum certas pedradas no charco. Mau mesmo é que alguns desses nem sequer apanhem os salpicos, por falta de compreensão. Isso assusta-me, o imobilismo, a impotência, o deixa andar, o encolhre de ombros individual e colectivo.