quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O jantar

Decorreu sem cerimónias. Como se se tratasse, de facto, de um grupo de velhos e bons amigos. Um traço distintivo, no entanto, era uma amizade sem zangas, nem amuos e, talvez por isso, mais improvável.

Qual era, pois, o traço de união? Algumas afinidades - a música, o cinema, o teatro, a literatura, as viagens, alguns espaços. Como se fossem elas a eleger-nos, a escolher-nos, e não o contrário. Pontos de proximidade encontrados num mapa comummente traçado sem sabermos. Em diferido, em separado, sem intenção. Seguramente, também é destes "acasos" que se tece uma cultura.

Mas a afinidade maior, julgo, a vontade de descoberta do outro, dos outros. Essa aventura essencial, primordialmente humana.

Feliz descoberta, pois. Sem peso nem história, ou, talvez, com uma história por fazer. Uma afinidade só feita de um encontro de vontades.

Feliz descoberta que nos foi trazendo, a pouco e pouco, com pequenos passos, aquele "calorzinho" ameno e certo das coisas simples da vida, mesmo se vindas de gente complexa, de personalidades ricas, nas suas trajectórias, nas suas contradições, nas suas escolhas. Tão humanas, afinal.

Foi bom, pois. À suivre.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Guarda-rios e estuários (XIII)

Os estranhos ao nosso povo eram simplesmente os outros e os outros eram sem dúvida mais, muito mais que nós. Não havia, contudo, hostilidade para com eles, eram acolhidos e celebrados sem alarido. Alguns homens e mulheres Almar tinham trazido outros para dentro do nosso povo por laços de amor. Quando era muito pequena não percebia bem esta divisão entre nós e os outros. Descobri-a, talvez, com o primeiro amor.

Os meninos Almar eram feitos de bravura e generosidade, entravam dentro do rio para tentar apanhar os peixes com as suas próprias mãos e depois repartiam-nos entre eles, em festa. Aqueles eram os meninos que eu conhecia e por isso não compreendia aquele que se tinha cruzado no meu caminho, parecia filho do pó do vento, de tão louro e de tão calado que era.

O rapazinho seguia-me para todo o lado: na vila, pelos caminhos, e vinha mesmo até ao nosso lugar junto ao rio. Se eu parava e olhava para ele, ele parava também. Nenhum de nós dizia nada, ele seguia-me e era tudo o que acontecia entre nós.

Mas um dia ele ficou parado muito perto da minha tenda e a minha mãe descobriu-o enquanto estendia os tapetes a pingar tinta nas cordas presas entre as árvores. Perguntou se era colega da escola e disse que não, que não sabia quem era. Perguntou sobre as nossas conversas e brincadeiras e eu acenei a cabeça dizendo que nada, não havia nada. Ofereceu-lhe sumo de tangerina e bolo de milho e ele comeu sem dizer nada, os olhos fixos em mim. Quando ele se foi, ela disse-me: os teus amigos outros serão sempre bem acolhidos, mas feliz filha... isso só serás com um rapaz Almar. E nada proibiu, mas depois disso nunca mais parei no caminho a olhar para o rapazinho. E ele desapareceu.

Não sabia a minha mãe que os rapazes Almar iriam pouco a pouco extinguir-se como plantas sem terra e que a frase dela ficaria dentro de mim muito tempo como se fosse uma maldição. Procurei muito tempo esse rapaz Almar por aldeias, vilas, países e continentes. Se quiserem que diga como vocês diriam: procurei como uma vossa rapariga procura um princípe mais valente do que um touro ou um vosso rapaz procura uma princesa tão linda que ilumina o próprio escuro.

Agora já nada procuro, outros e nós já não existem e o amor é coisa que habita o sangue de um outro modo. Digo-te pois que se deixares o teu coração viajar liberto de maldade e de preconceito, poderás descobrir o que há para amar dentro de cada um que cruzar contigo o olhar num qualquer caminho.
~CC~

É esta a viagem.

Bom dia!
~CC~

Amolecimento

Foi há muitos anos que o li. Descreve as relações humanas de tal modo que, à medida que crescia e ecoavam na minha cabeça as suas palavras, me fui interrogando sobre a minha qualidade de ser humano. São assim os romances, povoam-nos a imaginação e fazem-nos desejar viver folhas de uma vida de papel.

A arrumar livros encontrei, dentro de "um" Eugénio de Andrade, um pedaço de papel onde tinha anotado várias citações de Os nós e os laços, de António Alçada Baptista. Retomo aqui uma delas à distância de 20 anos e actualizo-a num trabalho da Pública de domingo passado, intitulado Os portugueses estão mais deprimidos? (Texto de Inês Barros Baptista Fotografia de Nuno Ferreira Santos).

"Hoje...os angustiados vão aos neurologistas que lhes dão remédios para diluir a memória e com ela as razões próximas das angústias. Perdeu-se o frémito para as grandes causas mas também se perdeu o frémito para vibrar com grandes angústias. Fica uma amargura mansa, povoada de nostalgias brandas da felicidade, da alegria, dum empenhamento qualquer que valha a pena." in António Alçada Baptista, Os nós e os laços, p.112

Passarada!


segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Preguiça


É sempre no fim das férias que me apercebo do quanto gozei de uma preguiça incorrigível durante, pelo menos, um mês inteirinho.

Difícil regresso a rotinas impostas de fora quando o de dentro ditou regras bem mais agradáveis. Até o cheiro da cidade se tornou diferente, até as ruas se enfeitaram de luz por baixo das minhas pestanas, até os jardins verdesceram debaixo dos nossos narizes e o Sol, esse, não nos desacompanhou de todo.

Agora, quase, quase de regresso vou fazendo aproximações virtuais. Uma espreitadela aqui uma anotação ali e, devagar, refaço o caminho de volta com jantares entre amigos redescobertas e leituras paralelas para não me deixar ir pelas obrigações, assim, de repente e sem remédio.


Café do Jardim do Príncipe Real

Olhar


Escrevi sobre ele num dia feliz. Costumo lá ir como quem vai a casa de um amigo. E está certo, como os amigos nos prendem à vida, os nossos poetas também se enleiam connosco nas horas mais amargas e mais doces e não nos abandonam mesmo quando a maré parece levar-nos para longe.

Agora, pela teia, cheguei a mais um lugar na rede e com ele a olhares sobre a natureza pendurados no museu que acho que é um bocadinho meu. Na impossibilidade de poder ir, queria que alguém fosse lá lavar os olhos em beleza por mim.


Um dia talvez...veremos o corpo nu da mulher sonhada pelo João em mil fotografias belas, mas eu prefiro pensar que ele sabe que todos os corpos amados são corpos nus que nos ficam nos dedos.

Tenho algumas fotografias assim, presas nos dedos de alguém e outras de alguém preso nos meus dedos.
~CC~

domingo, 2 de setembro de 2007

Mes(es)



Setembro é a terra ainda quente do Verão onde as sementes aguardam a água para poderem rasgar a sua casca e emergir para ver o sol. Mais tarde farei como as abelhas, beberei nas flores a luz como se ela fosse a esperança.
~CC~

A net tem destas coisas!

Exposição Retrospectiva de Ricardo Casimiro, Escultura cerâmica contemporânea
ESE de Setúbal - 14 a 25 de Maio de 2007

Quando vi, no átrio da escola, as peças de cerâmica de Ricardo Casimiro pensei tratar-se de uma oportunidade para tentar aprender um pouco mais sobre fotografia. O meu gosto pela fotografia é recente e os resultados nem sempre são famosos. No entanto, sempre que vejo alguma coisa, que considero realmente bela, começo a pensar que gostaria de ter a máquina à mão nesse momento...Foi o que aconteceu com as peças do Ricardo. Como neste caso a exposição ficou tempo suficiente, um dia levei a máquina para fotografar as peças que me fizeram lembrar uma personagem de um filme de ficção cientifica que vi há mais de 20 anos.

Não sei se esta "paixão" pela fotografia pode ser dissociada da possibilidade de, pouco tempo depois de fazer um clique, graças à Internet, podermos submeter o resultado à apreciação de outros amantes da fotografia e, assim, sentir-mo-nos parte de uma comunidade que partilha, pelo menos, um gosto connosco.

Qual não foi o meu espanto quando a foto acima, muito depois de ter sido disponibilizada, recebeu um comentário de alguém que dizia gostar da foto mas muito mais da obra fotografada uma vez que se tratava de uma peça sua! O autor encontrou a referência ao seu nome através de um motor de busca e assim a fotografia em causa num site, dedicado a fotografia, que nem conhecia. Assim, um pouco por acaso, graças à Internet encontrei o autor das peças de que gostei tanto e ele encontrou imagens do seu trabalho!

Muito haveria a dizer sobre encontros e desencontros através da Internet. Conheço pelo menos duas pessoas que encontraram os actuais companheiros algures nas teias da rede e, em ambos os casos, as relações, que parecem estar pelo menos tão bem que muitas nascidas nos bancos dos jardins públicos, das escolas, dos bares ou das discotecas, deram já frutos.

Confesso que, embora não me sinta ainda preparado para isso, o meu sonho enquanto fotógrafo (amador) de coisas belas seria o de fotografar o corpo de mulher. Na minha opinião é (e desculpa Casimiro) a melhor obra de arte jamais produzida e fotógrafos(as) como Amanda.com, por exemplo, conseguem captar toda essa beleza.

Quem sabe se não será também a Net a trazer-me um dia a modelo ideal.... Fico à espera, enquanto treino com monumentos, flores, janelas e peças de cerâmica!

Janela do lado...