quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Guarda-rios e estuários (XVI)



A mulher dos olhos cor de violeta casou-se num dia sem chuva. E a nascente escolhida também não tinha água abundante. Para um povo tão ligado à água como era o meu povo Almar, não foi um bom presságio.

Quando ela passeava com o marido ao lado (sempre com ele) baixava os seus olhos belos e densos, enquanto ele olhava frontalmente todos os que com eles se cruzavam. Os olhos do homem, mesmo sendo Almar, não eram olhos tranquilos, estavam tão cheios de amor como de medo. Um dia, disse a um dos rapazes mais bonitos de Almar, que não se atrevesse a olhar para a mulher dele. Ela não mais saiu sozinha e ele vagueava sem poisar em lugar nenhum. Até que um dia ela não saiu mais da tenda, nunca mais a vimos. Se alguém perguntava por ela, ele dizia apenas: está bem.

Num lugar feito de laços tão fortes, a ausência deles era como uma nuvem negra a pairar no azul. Quando o homem deixou de aparecer até para guardar o curso do afluente que lhe estava destinado a pares com outro homem Almar, foram à procura dele dentro da tenda.

Ele estava deitado num canto e tossia, ao lado uma chavéna de chá de ervas. O resto da tenda estava vazio, não havia sombra da mulher dos olhos cor de violeta. Perguntaram-lhe por ela e ele disse apenas: foi vender os panos à feira, não tarda está de volta.

Compreendemos todos, até eu que era uma criança, que ela não mais voltaria. Não se deve prender os passáros, quanto mais uma mulher com olhos cor de violeta. Não se devem prender os ventos, quanto mais as pessoas.


~CC~

Solidariedade

O espectáculo pode ser intermitente, a vida não!

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Continente de afecto



Há na minha família, que alguns dos meus colegas psicólogos chamariam disfuncional por ser um arquipélago de afectos em vez de uma estrutura hierárquica de poder, um amor constantemente posto à prova. A vida tem colocado pedra sobre pedra em cada um dos nossos caminhos ou mesmo no trilho comum. Por vezes achamos que poderemos repousar, mas nunca é assim, há sempre qualquer luta a travar. E de cada vez que isso acontece, este amor sai renovado, reforçado, sempre maior e diferente, acompanhando o crescimento de cada um de nós. É por vezes um amor conflitual, o que lhe dá a a textura das coisas reais e o afasta do perfume etéreo de certas famílias perfeitas. No entanto é, na sua imperfeição, a minha família perfeita.


Ontem a irmã mais nova, uma sobrevivente, cuja gravidez de alto risco escondia uma luta pela sua própria vida uns anos antes, conseguiu aumentar a minha família com a gente mais pequena que alguma vez vi: um menino com apenas 673g, menos peso que um pacote de leite. Impressiona a sua imagem de fragilidade, mas a minha filha, a segunda a vê-lo por se ter intitulado com toda a sua esperteza como mana dele, disse apenas: é tão bonito! E aquela alegria dela fez brilhar mais os olhos da minha irmã.

Na Indía nasceu a mais velha cujo aniversário se comemora hoje, trouxe para sempre com ela a pimenta e a canela e com elas na pele tem enchido a nossa vida. Nunca se deve deixar de dizer a alguém o quanto é importante para nós, mesmo que essa pessoa já o saiba, é isso que faço agora.

Todos os outros são únicos em beleza e singularidade, mas hoje escolho estas duas para exprimir o meu amor. Se mais não houvesse, já me servia para isto este "ninguém lê".

~CC~

1 de Julho de 1867


Abolimos a pena de morte há 140 anos. Fomos pioneiros.




Decretámos a abolição da pena de morte mas ainda não conseguimos decretar a morte das nossas penas.












Foto retirada
daqui.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Medieval helpdesk

9 de Outubro de 2003


Há quatro anos atrás entrou na minha vida uma luz renovada, pequenina, intensa e brilhante. A alegria reencontrada de ser mãe pela segunda vez. Dores renovadas de parir e o prazer de cheirar aquele cheiro interior. Íntimo. Único. Um calor húmido e diferente de tudo.
Nada é comparável a estas vivências, a esta intensidade, a este desafio. Que bom elas existirem na minha vida. Ramos de árvore apontados para o céu.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Guarda-rios e estuários (XV)



Vivia em Almar uma mulher de olhos cor de violeta. Diziam que tinha nascido de uma ligação entre um homem Almar e a sereia que vinha deitar-se na língua de areia do estuário. Por ser essa a sua origem, a cor dos seus olhos não era de pessoa, nem de bicho.


Era uma mulher linda e muito calada, diferente de todas as mulheres Almar que de tudo sabiam fazer e cuidar. Cresceu passeando o seu silêncio entre as tendas, os tapetes de cores, e os cantares de festa, num mistério crescente.

Quando se tornou rapariga deixou a tenda dos pais adoptivos onde vivia e foi para a tenda das mulheres. Era essa a prática comum por volta dos 18 anos. Na tenda das mulheres viviam solteiras, separadas, viúvas, viviam todas as mulheres que queriam estar em conjunto, fora da casa dos seus pais ou que por razões diversas não queriam ou não podiam ter em permanência uma tenda de matrimónio. As tendas de matrimónio eram tendas de amor, quase sempre de um amor duradouro que unia duas pessoas num abraço eterno, mas houve também tendas de amor fugaz, luzes que se acenderam como se fossem um pirilampo. Era aceite tudo o que era ou se tornava da claridade da água das fontes.

A tenda das mulheres era um lugar de aprendizagem quase completa do que significa a democracia na vida de todos os dias. Gostava de lá ir em pequena para beber chá e provar as muitas variedades de doces que sabiam fazer, sonhava um dia lá morar (mas Almar morreu antes de eu me tornar mulher).

Quando a mulher dos olhos cor de violeta foi morar para a tenda, quase aprendeu a sorrir. E já ia dizendo algumas palavras simples, como se só tivesse ontem deixado a infância e aprendido a falar. Por vezes, nos dias de festa, ela parecia quase feliz. Nesses dias eu via, ainda com os meus olhos de menina, que os homens Almar olhavam muito para ela.

Não demorou muito até se ouvir dizer que se ia casar e que já tinham escolhido a nascente do rio onde ia acontecer. Não sei porquê, ainda tão pequena que eu era, e fiquei triste com aquela notícia. Provavelmente deixaria de a ver nos seus gestos silenciosos a mexer com a colher de pau o doce de amoras silvestres, se calhar era apenas isso que me deixava triste. Era apenas isso, muito provavelmente.

(continua...)

~CC~

domingo, 7 de outubro de 2007

revolução




Vinha falar de uma revolução que acontece hoje mas de repente lembro-me que ela não é uma revolução dos outros, é só minha. A Revolução de 7 de Outubro não vem no calendário comum.

Se descremos do amor porque ele se descruza de nós adoecido por cem mil pesos que lhe tiram a vida, achamos que nunca mais lhe prestaremos a mesma homenagem, que só haverá amores pequenos, mansos e domesticáveis. Mas no íntimo não desejamos outra coisa que seja não termos razão. E um dia apanhamos em força um vento que passa perto do mar, no dia seguinte o coração já sabe a sal e nos seguintes olhamos para o nosso corpo espantados por ele não se ter esquecido como pode ser festa.

É espantoso o quanto se pode renascer quando a crença volta.
~CC~

Palmela

Bom domingo

sábado, 6 de outubro de 2007

Filmes que me tocaram...



Fala com ela, Pedro Almodóvar (2002).

Cada um vê um filme ou lê um livro à sua maneira. Compreendemos algumas das mensagens do realizador ou escritor, não percebemos outras e, acredito que, algumas vezes, até recebemos mensagens que não estavam a pensar passar.

Neste filme, de entre todas as mensagens, a que mais me tocou é a da amizade que se cria entre duas das personagens. Quando todos nos julgam, por actos que todos reprovam, os amigos são os únicos a conseguir ver a nossa perspectiva. Não interessa se são amigos recentes ou de sempre. Os verdadeiros virão nas horas más, porque é nessas horas que precisamos deles, e dirão: Posso não concordar, posso não compreender, mas estou aqui para te dizer que não estás só!