segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Pessoas são um presente!

Não andava à procura de poemas, juro! Fui simplesmente ver as fotos do Fernando Pinho. Senti curiosidade em saber quem são os fotógrafos favoritos de um bom fotógrafo. Só podem ser bons fotógrafos também, pensei. Tentei a minha sorte com a Lena Queiroz e escolhi a foto que aqui reproduzo. Foi então que comecei a ler o comentário da autora e descobri o poema...

Não resisti a trazer para aqui, neste dia de presentes.

Obrigado Fernando, obrigado Lena.


Pessoas são um presente.
Algumas tem um embrulho bonito,
como os presentes de Natal, Páscoa ou festa de aniversário.
Outras vêm em embalagem comum.
E há as que ficaram machucadas no correio...
De vez em quando uma Registrada.
São os presentes valiosos.
Algumas pessoas trazem invólucros fáceis.
De outras, é dificílimo, quase impossível, tirar a embalagem.
É fita durex que não acaba mais...
Mas... a embalagem não é o presente.
E tantas pessoas se enganam, confundindo a embalagem com o presente.
Por que será que alguns presentes são complicados para a gente abrir?
Talvez porque dentro da bonita embalagem haja muito pouco valor.
E bastante vazio, bastante solidão. A decepção seria grande.
Também você amigo.
Também eu.
Somos um presente para os outros.
Você para mim, eu para você.
Triste se formos apenas um presente-embalagem:
muito bem empacotado e quase nada, lá dentro!
Quando existe verdadeiro encontro com alguém,
no diálogo, na abertura, na fraternidade,
deixamos de ser mera embalagem e passamos à categoria de reais presentes.
Nos verdadeiros encontros humanos,
acontecem coisas muito comoventes e essenciais:
mutuamente nós vamos desembrulhando, desempacotando, revelando...
Você já experimentou essa imensa alegria da vida?
A alegria profunda que nasce da alma,
quando duas pessoas se comunicam virando um presente uma para outra?
Conteúdo interno é segredo
para quem deseja tornar-se Presente aos irmãos de cada estrada
e não apenas embalagem...
Um presente assim não necessita de embalagem.
É a verdadeira alegria que a gente sente e não consegue descrever,
só nasce no verdadeiro encontro com alguém.
A gente abre, sente e agradece a Deus.


Pessoas que são um Presente
S. Sheider/H. Hartmann

sábado, 23 de dezembro de 2006

Desejos de Natal

Um lugar onde o sol possa entrar pleno e a todos aquecer. Onde o olhar possa saber a chocolate.
Onde a tua mão possa sempre chegar à minha. Onde a discordância seja a semente do crescer. Onde a poesia encontre uma casa. Onde o som das ondas se pode ouvir. Onde o futuro, ainda que às riscas negras tenha riscas azuis. Um lugar para estar. Assim um blogue que ninguém lê...

CC

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Você aprende!

Fui tomar a bica ao Café Preto e encontrei isto por lá! Se gostarem encontram lá também a transcrição do poema de William Shakespeare.



quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Boris Cyrulnik

"Si Boris Cyrulnik était un animal ce serait une abeille. Neurologie, psychanalyse, psychologie, bilogie, anatomie, sociologie, éthologie animale, philosophie ou esthétique: dans tous les domaines du savoir, il fait son miel", Nouvel Observateur, Outubro 2006
Tomei conhecimento das suas teorias há alguns anos. Foi quando precisei de me munir de algumas "armas" para fazer face a uma série de consequências desagradáveis de uma situação que eu não criei. Foi-me apresentado como um "teórico" que escrevia sobre a resiliência. Não sabia o que era mas explicaram-me que era uma expressão "roubada" à física dos materiais e que tinha a ver com a capacidade que alguns materiais têm para sofrer alterações, adaptando-se sem se destruirem. Diferente da resistência porque os materiais resilientes integram os factores de mudança. Aplicado aos humanos já estão aver o que dá: todos nós, dependendo das vivências de cada um e da forma como recebemos e integramos os embates da vida, somos mais ou menos resilientes. Recentemente, li uma longa entrevista que ele deu ao Nouvel Observateur, onde retoma as principais linhas das suas teorias. e onde ficamos a saber que ele próprio é um resiliente. Em 1944, tinha seis anos e estava na Sinagoga de Bordéus quando chegou um camião das tropas nazis para "recolher" os judeus. Desobedeceu às ordens e escondeu-se na casa-de-banho. Quando saiu, nenhum dos rostos que ele conhecia o esperava cá fora. Começou então um périplo, onde de cada etapa saía mais reforçado. O resto foi acontecendo e vale a pena ler a entrevista para percebermos melhor como se pode fazer da desventura um desafio de que, às vezes, podemos sair ganhadores. Retomo, para acabar, uma das frases retiradas da entrevista "
Face au malheur, un choix s'offre à nous. Ou bien nous retourner sur notre passé, et le sel des larmes alors nous pétrifie. Ou bien aller vers l'aventure de la vie". E nós, que temos nós andado a fazer da nossa capacidade de resiliência???

Plazza Mayor

Parei e olhei em volta. A pedra devolveu a luz com que eu a olhei olhando-me também. Vi-me por dentro e vi-o por dentro. A textura era veludo preto e o beijo quente salvava-me do frio.
Por todo o lado havia gente cruzando a praça e falando muito alto. Dizem que é Natal e eu acredito, acredito na festa e nesta festa que há hoje em volta de mim. Há momentos em que a tristeza não entra para cortar aqueles em que a tristeza me toma.
Deixo-me tocar por ti, pelo tempo, pela plazza.
E volto, ainda que ficando lá.
CC

domingo, 17 de dezembro de 2006

Interne, blogues jornais e plágio...

Soube, através do blogue de ecuaderno de José Luis Orihuela, de um caso de plágio muito recente em Espanha.
Resumindo a história, um polícia de 47 anos, que escreve uma coluna para um jornal local, encontra um texto de que gosta num blogue (Orsai) e publica-o como sendo seu, sem nunca referir onde o encontrou. O autor do texto original telefona-lhe e faz uma entrevista onde, entre outras coisas, lhe pede autorização para republicar o texto. Curioso é que a autorização é concedida pelo polícia que acha natural apoderar-se de textos e opiniões que encontra na Internet porque, e as palavras são suas, "No es robar... Internet creo que es un medio común, general, y si no viene identificado pues no se llamaría robo." De referir que o texto está publicado num blogue onde há uma ligação directa para informação sobre o autor.

Já agora, vale a pena ler o texto original, mesmo estando em castelhano (El nuevo paraíso de los tontos), uma vez que trata dos tontos na era digital! Penso que além de reflexão sobre os tontos da era digital faz falta também alguma reflexão sobre os chico-espertos da era digital!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

...Eça de Queiroz

...isto não é um país, é um sítio mal frequentado. Dizia ele no século XIX...

Há dias assim, em que nos sentimos vazios. Vazio de sentido o que fazemos, vazio de esperança aquilo em que acreditamos. Vazio só. E sinto assim o nosso país, vazio de sentido e de projecto, continuamente alimentado pela ignomínia e cada vez mais anestesiado. Não diria que é "urgente por um barco no mar" mas é de certeza urgente voltar a navegar por dentro de nós, por límpidas águas e claros pensamentos. Se olhasse para o rectângulo de fora, veria um sol esplendoroso que aquece praias sujas e homens tristes. Não posso deixar de ficar desapontada/revoltada ao ver pelas ruas da cidade os cartazes dos defensores do Não no próximo referendo sobre a IGV. Não posso deixar de me sentir invadida por uma insuportável tristeza nascida desta revolta contra a hipocrisia e a mediocridade. Seria bom que os "senhores" legisladores tivessem claro nas suas "pobres" cabeças que nenhuma mulher aborta porque quer, que o direito a melhores condições de vida é mesmo um direito. Efectivo e não só no papel. Que os nossos impostos devem servir para construir um país melhor, onde temos vontade de ficar e não de partir. Que o direito à saúde é efectivo e não só no papel. Que o direito à educação (também a sexual) é um direito efectivo e não só no papel. Que ninguém é livre se outro alguém o não é. Que a moral e os bons costumes já fizeram vítimas de sobra. Que a Igreja Católica também tem o seu altar de sacríficios bem ensanguentado em nome de coisa nenhuma. Que a alegria da vida é um bem incomensurável e que, por isso mesmo, temos o direito de decidir por ela, em consciência e com condições. Não pensem que esta nota triste vai assim até ao fim. Por mim, não posso deixar de me congratular por ter duas filhas fantásticas, desejadas e nascidas de vontades comuns.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Para que serve um blogue?

Para que serve um blogue?
Cada pessoa terá certamente uma resposta diferente. Conheço blogues de professores e de alunos muito interessantes; blogues de jornalistas que escrevem o que lhes apetece sem passar pelos crivos dos editores; blogues de soldados que contam notícias da guerra; blogues de adolescentes que contam os seus desabafos; blogues de poetas que publicam os seus poemas; blogues de fotógrafos que partilham as suas fotos, blogues de políticos que escrevem sobre as suas ideias, blogues cheios de humor de onde não saímos sem dar uma valente gargalhada; blogues de pessoas invisíveis que nem querem que se saiba quem são e até este, imagine, que ninguém lê!

Ando a ler um livro que se chama "Dernier courrier avant la nuit" do Sérge Réggiani. Esse livro é composto por cerca de 40 cartas que o autor dirige a outras tantas identidades. A maioria são dirigidas às pessoas que com ele se cruzaram, ao longo da vida. Outras ainda são dirigidas a lugares, como Paris ou Itália, e a última, que ainda não li, a ele próprio.
Muitos dos destinatários já não se encontravam vivos quando as cartas foram escritas. Há mesmo uma para o filho que se tinha suicidado há mais de uma década. Nem todas são palmadinhas nas costas ou apenas recordações de bons momentos. Li uma particularmente dura para um realizador que o dirigiu num dos seus filmes.

Réggiani, que foi actor, cantor e pintor, publicou este livro, no final da década de 90, para dizer a todos, antes de ele também partir, algumas coisas que não queria levar com ele.

A qualidade da maioria dos textos, desculpa Réggiani, nem é do melhor que já tenho lido (estando mesmo assim muito acima daquilo que eu conseguiria escrever) mas tenho a certeza que o livro não é um livro que ninguém lê e que muitos, como eu, sentem curiosidade pelo facto de admirarem o cantor, o actor ou o pintor e não resistem a comprar este livro.

Mas, se muitos blogues já se transformaram em livros, penso que este livro se transformaria num blogue! No fundo é um conjunto de textos que foram escritos principalmente pelo prazer da escrita, e pela partilha do que estava lá dentro atravessado.

Claro que os blogues servem para muito mais do que partilhar as palavras que temos atravesada. Mas, não foi assim que começaram? Dando a todos o direito à escrita das suas "cartas" e permitindo que os destinatários as viessem ler (ou não)! Esta tecnologia veio permitir que todos estes nossos "recados" fossem publicadas e estivessem acessíveis de uma forma muito simples e a um preço muito baixo. Claro que nem sempre se publicam textos de qualidade e nem sempre é feito o melhor aproveitamento deste recurso mas também é por isso que alguns blogues... ninguém lê!

E na opinião de todos aqueles que passam por aqui sem ler, para que serve um blogue?

Fez ontem um ano que me saí não só com vida mas absoltutamente inteira (pelo menos por fora)de um acidente grave de viação. O minuto do despiste e a morte à frente recordo com o desejo absoluto de vida que tive. Um desejo tão forte e tão intenso que talvez resida nele o facto de estar aqui a escrever neste blogue que ninguém lê(a não ser talvez a Claúdia). E enquanto pensava no sabor da minha vida - uma espécie de vida segunda- pensava também na banalidade com que as mortes acontecem assim de repente e às vezes tão estupidamente. Veja-se a fila de homens que aguardava por um emprego no Iraque e no fim dela o que os esperava era um bombista. Como podem os homens guardar bombas e explodi-las contra os seus?! E a forma como se varriam as ruas, acolhiam os feridos, se enterravam os mortos tinha a violência dos actos banais. Há qualquer de muito estranho no mundo, há qualquer coisa de absurdo, de doloroso, qualquer coisa que sei que por me doer nunca me deixará ser inteiramente feliz. Todas as semanas há estas bombas a explodir e a matar pessoas naquele lugar do mundo e a forma como isto é dito é de uma conformidade assustadora. Mais um atentado, mais uma bomba, mais um país sem rumo, mais vidas sem nada de seu.Pela minha vida que ainda amo tanto e pela vida daqueles que eu amo tanto, ainda me tocam as que se foram assim tão sem sentido.
CC

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Finochet

Cartoon de MacDonald encontrado em: infinit∞