quarta-feira, 4 de abril de 2007

urgência(s)

Tenho urgência em descansar de mim. Ou em encontrar-me comigo.
Encosto uma mão na rocha. Encosto a outra. Depois o meu rosto. Posso sentir o cheiro do mar nesta rocha. Nunca soube explicar bem o efeito deste lugar em mim. Lugar onde a areia que deixo entrar nos meus pés encontra amiúde seixos pretos e redondos. Apetece dissolver-me, misturar-me com as coisas, espalhar-me nelas. Imagino que elas levam os fantasmas que atravessam os meus dias e depois me devolvem a eles cor da água. Parece que vai chover. Parece que vai fazer frio. Parece que não devo ir.
Eu vou. Talvez volte mais forte. Ou cor da água.
~CC~

Com quem?

Ir à praia? Trocar umas ideias sobre o assunto? Fazer falar uns poetas? Ouvir uns lobos? Ir à feira? Enfim, conversar...ou desconversar?
Por exemplo, com quem não nos lê mas até nos vê...e até tem assim três entradas como nós e faz pontes.

CCF
CGS
JVT

Onde?

Talvez aqui...
Praia fluvial numa pequena aldeia a poucos quilómetros de Sabugal

...ainda os lobos

Há lobos para serem vistos e ouvidos por aqui.

Porquê?...

Há uns anos atrás, por causa de laços e nós que a vida faz e desfaz, precisei de recorrer àquilo que no linguajar dos experts se chama "ajuda especializada". Sempre renitente a estas ajudas que vêm de fora, lá fui e até gostei do "especialista". Era um oficial da escuta, tinha sido treinado para o ser. As minhas perguntas mais constantes passavam sempre por um "mas para quê?", ao que ele, pacientemente, respondia, "não vá por aí, será melhor perguntar porquê?". Dava-me um trabalhão, encontrava tantos caminhos possíveis quantas respostas inconciliáveis, mas andava...e parava... e voltava atrás. Abria e fechava portas e gavetas, algumas com a chave lá dentro. Eram falsas.
O conhecimento é assim feito e a ciência, essa, já não é sagrada. Por isso, lembrei-me a propósito do post da parceira CCF, de um livrinho que li há já algum tempo mas que lhe recomendo: Será preciso queimar Descartes?, de Guitta Pessis-Pasternak, Relógio d'Água. No Prólogo, René Thom - matemático das «catástrofes» ou: a aventura científica em risco de heresia, diz o seguinte: "Cada disciplina arrasta assim os seus «mártires», irritados, frustrados, ignorados pelos sistema de reconhecimento. A comunidade científica, como qualquer outra, é cruel!"

terça-feira, 3 de abril de 2007

Para quê?

um congresso em montesinho*

depois de três dias de
comunicações e mesas redondas sobre
a conservação do lobo
o capuchinho vermelho pediu
a palavra e disse
tudo muito certo
mas como é que eu levo
o lanche
à minha avó?


Penso e penso na resposta a dar ao capuchinho vermelho...faço umas alíneas:
a)mas não compreendeu como? (é a técnica de devolver a pergunta ao interlocutor, esperando que seja ele a responder, pedido de ajuda implicíto por baixo de alguma arrogância)
b)não é esse o problema aqui em discussão (sublinhar ao interlocutor que deve estar mais atento, que a resposta que procura não está aqui)
c)há que pesquisar mais, tentar ainda saber qual o caminho melhor(reconhecer que ainda não chegámos ao conhecimento que possa reverter para a prática, reconhecer os limites...por mais que custe não há linearidade...)
d)mas nós não estamos aqui para encontrar respostas, andamos à volta das perguntas pelo prazer que elas nos trazem, para construir o conhecimento pelo valor do conhecimento(creio que isto será difícil para o capuchinho, mas tem muito de verdade)
e)...
f)...

~CC~
(isto tudo por causa das perguntas das filhas da companheira cgs e por causa delas... da pergunta da minha).


*José Carlos Barros. In Revista 365, org. de Fernando Alvim e José Luís Peixoto
www.revista365.com

De regresso....

O passeio acabou!
A Plaza Maior estava linda....
Consegui encontrar a rã!
Agora temos que voltar ao trabalho!

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Ofício da escuta

Parece que todos estão lentamente a sair dos seus lugares em busca de um outro em que possam descansar uns dias, deixar os caminhos de sempre, ver outros rostos, tomar café fora do sítio do costume. Precisamos respirar (deve ser o que andam a fazer os meus dois companheiros de "ninguém lê").

Vario também os meus caminhos mas não para repousar(ainda), mas para respirar um outro estar.

Desconheço caminhos que já foram meus e penso como é possível já me perder neles. Quando deixei a cidade acho que o último autocarro tinha por designação carreira 93. Como é possível que seja agora o 327 a conduzir-me até aos lugares em que preciso estar em silêncio para escutar o que outros têm a dizer? De qualquer modo gostei particularmente desta carreira, percorre alguns lugares bonitos e, sobretudo, deixa-me ver várias vezes o rio.

Pratico o ofício da escuta. Primeiro ela: fala cerca de uma hora e 39 minutos. Depois ele, fala cerca de uma hora e 47 minutos. Gravo ou tomo notas, ao sabor da decisão deles. Quase não falo, fico a ouvir as suas hsitórias. Sei que os faço sentir importantes porque o somos sempre quando alguém nos escuta. A partir dos caminhos traçados por eles vou desenhar outros até preencher o meu mapa. Se conseguir, se encontrar o sentido para as ruas, travessas, largos e avenidas.

Gosto particularmente deste ofício da escuta.

~CC~

domingo, 1 de abril de 2007



Gosto de me deitar debaixo delas a medir quanto céu consigo ver. Medir que é como quem diz agarrar, ter, beijar. Em pequena, como quase todos nós, sonhava lá ter uma casa pequenina para morar mais perto daquele azul. Achava que se o conseguisse tocar os meus dedos iam ficar daquela cor. Agarrar azul.
~CC~

Ouvir o cinema no teatro

Parece estranho mas é possível ouvir o cinema no teatro. 30 de Março, Rodrigo Leão, CD "O cinema", Teatro S. João em Palmela. Vi o primeiro espectáculo que ele deu no CCB, há mais de um ano. Nada a ver com isto que agora nos traz e não sei bem porquê. É o calor, julgo eu. É que aqui há mais festa. É que aqui estamos mais próximos.

E a Celina aqui a dançar com o seu acordeão parece ainda maior. O sorriso do Rodrigo pode ver-se e sentir-se.

Batemos muitas, muitas palmas.

Muitas vezes me tenho interrogado sobre o trabalho do poder local, sobre a repetição de modelos políticos gastos que à escala micro se tornam ainda mais pequenos, mais ridículos. Mas a verdade é que foi a autarquia que o trouxe e que tornou possível pagar aqui quase metade do que paguei no CCB. Dirão que há coisas mais urgentes, mas a cultura nunca é urgente, ela faz-se dessa maravilha que é ser aparentemente dispensável. Ela é urgentemente única e faz de nós unicos como seres humanos.
~CC~

PS- E depois do elogio, o lamento. Não sei como foi possível deixar morrer aqui em Palmela o FIAR!