sexta-feira, 13 de julho de 2007

Guarda-rios e estuários (IX)


Em Almar, a mulher mais velha de todas guardava o tesouro. Era uma caixa de madeira quase preta com a pirâmide gravada, a mesma que todos nós tínhamos tatuado na mão, logo abaixo do polegar.

Esta tatuagem era feita no aniversário dos sete anos, um presente desejado como nenhum outro. E era aos sete por causa da palavra que estava dominada na oralidade e agora deixavam-nos partir para a escrita, a viagem da palavra escrita era a primeira para fora dos territórios da água. Por isso aos sete anos, em terra seca e na entrada para a escola onde nos misturariamos com todas as outras crianças, era necessário que a pirâmide nos brilhasse no escuro das salas de aula, que nos fizesse companhia. Ganhei o hábito de a esfregar nos momentos dificeís, mas não era um gesto só meu, vi-o noutras crianças Almar. Já adolescente pensei muitas vezes apagá-la, naquela idade em que só queremos ser diferentes de todos os legados que nos correm nas veias.

E quando esfregar a pirâmide não chega tento ver, com a mesma luz que vi pela primeira vez aos sete anos, o tesouro Almar. Eram apenas cinco sementes, cada uma diferente da outra. Uma era grande como um bolbo e outra tão pequena como uma semente de melancia. Eram lisas e rugosas, escuras e coloridas. Vejo-as dispostas diante de mim perante o sorriso da mulher velha. Vejo o meu espanto por pensar que dentro da caixa só podia haver ouro. E o atrevimento de lhe perguntar para que servia aquele presente, que importância tinha, afinal eram apenas cinco sementes numa caixa de madeira.

E da voz baixa dela e meio rouca a murmurar: das sementes tudo pode nascer.
Sim, das sementes tudo pode nascer.
~CC~

5 comentários:

JvTorres disse...

Quem guarda agora a caixa e as sementes?

Cristina GS disse...

Aonde te leva o caminho da fantasia?

CCF disse...

Boas perguntas as vossas...mas não sei as respostas! :)~
~CC~

Rui Santos disse...

Olá CC...

Obrigado pelo comentário...Devo dizer em primeiro lugar que agora mudei os meus textos todos ( e mais alguns que entretanto fiz) para o meu novo blog.

Está em http://www.repentismo.com/

Quanto ao que me pergunta, Almar foi uma palavra que me ocorreu na altura. Como se fosse um verbo para transmitir o que sentia. Não tem, portanto, nada que ver com qualquer terra ou povo. Achei muito engraçada coincidência.

Também gostei muito do seu texto.Continue :)

Rui Santos

CCF disse...

Olá Rui

Almar(es)! Obrigado pela visita.
Já fui espreitar o blogue novo...e agora de vez em quando irei lá ao banho de letras, é que é muito bom! :)
~CC~