segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Seguros?

A denúncia social e política raramente consegue fugir ao tom panfletário e à simplicidade dos seus chavões, costumo evitá-la cuidadosamente e tecer outros laços para as minhas lutas. Não sei de coisas simples neste mundo complexo e por isso assustam-me as palavras que ecoam definitivas no seu julgamento. A palavra capitalismo é uma delas, parece abafar o mundo mas não lhe conhecemos nem os contornos nem as fugas.

Às vezes fico hesitante a olhar o objecto desta ou daquela campanha, o tom inflamado deste ou daquele blogue ou os combates que assumem tanto mediatismo que parecem ser mais importantes do que aquilo que defendem (como o filme do Al Gore).

Mas desta vez quase não posso evitar denunciar o modo como as Seguradoras se tornaram mais e mais agressivas nos últimos tempos, praticando actos desumanos com a maior das impunidades. Tenho histórias complicadas com elas e de cada vez que nos cruzamos, conseguem fazer pior do que na vez anterior. A segurança costumava ser uma palavra que combinava com conforto e estabilidade e para isso muitos de nós estavam dispostos a pagar, mas ultimamente quanto mais precisamos deles, menos eles lá estão.

Leio no Jornal Público que no último filme de Michael Moore (Sicko), é contada a história de um homem que "ficou sem as cabeças de dois dedos num acidente com serra eléctrica e teve que escolher, por imposição da seguradora, qual deles queria ver reconstituído, porque dois era demais". Muito se tem dito sobre os métodos de denúncia de Michael Moore, nomeadamente sobre o modo como manipula a informação. Mas nesta matéria eu acredito no filme dele.

Em Angola, em situação de urgência médica, dei entrada numa clínica e fiquei logo internada por risco de astenia e desidratação. Procurámos, às 3 da manhã, a clínica mais perto do local onde estava e com boa reputação, sabendo nós que havia um seguro de viagem. Mal entrei e aquela hora imprópria mas também reveladora do susto em que estavámos, a minha colega ligou para a seguradora. A seguradora disse duas coisas importantes : a) que a minha colega tinha que se vir embora e deixar-me lá porque o seguro não cobria um acompanhante (ainda hoje temos dúvidas que assim seja, mas não há dúvida que foi a coisa oportuna para se dizer); que aquela não era a clínica indicada, não tinham acordo.

A L, não só colega mas também amiga e um ser humano exemplar disse-lhes que nunca deixaria uma colega doente sozinha no estrangeiro. Ouvi-a depois várias vezes dizer a palavra nunca bem alto, quase gritar-lhes, logo ela que é tão calma. Imagino o resto dos diálogos. E ainda hoje me interrogo sobre que seres humanos aceitam este trabalho, pois por mais que a vida custe, há profissões que, parecendo menos dignas, o são mais. Mas sobretudo interrogo-me sobre os proprietários destas mega-empresas de seguros e sobre o modo como perderam de todo o seu sentido de missão. Alguém lhes devia dizer nunca bem alto todos os dias.
~CC~

2 comentários:

JvT disse...

Sempre disse que, numa viagem, tão ou mais importante que o "para onde" é o "com quem". Ainda bem que estavas na companhia de alguém que soube dizer nunca!
Gostei do título...

CCF disse...

Sabes que nunca tinha pensado o quanto essa questão do "com quem" é importante...mas tens razão!
~CC~