quinta-feira, 19 de julho de 2007

Guarda-rios e estuários (X)




Uma criança Almar é como qualquer outra rasgada pelo desejo de saber. A resposta da mulher velha não tinha saciado a menina. Ela indagava: diz-me, diz-me o que pode nascer destas sementes? E voz baixa, quase monocórdica: o que tu quiseres, o que tu quiseres, diz-me o que queres tu. E a criança sem compreender a pensar que aquilo que era um tesouro não podia ser o nada, tinha que ser o tudo. Concentrou-se na ideia tudo, no que podia significar tudo.

Uma semente devia dar origem a uma bananeira, porque a banana é como o pão a saciar a fome.

Uma semente devia ser uma faísca eterna, capaz de atear o lume em qualquer circunstância, mesmo quando a lenha respira chuva.

Uma semente devia ser uma isco que atraísse sempre os peixes mas que ao mesmo tempo nunca se gastasse, permitindo trazer para casa apenas os suficientes para que no mar ainda pudessem sobrar muitos.

Uma semente devia dar origem a uma árvore tão grande, tão forte e tão frondosa como um imbondeiro, uma árvore como uma casa ou uma casa árvore.

E a última semente, a última devia dar a flor de marucujá, uma flor capaz de durar sempre, uma flor sem morte.

A mulher velha escutou-a atentamente e disse apenas: a última, o que desejas que nasça a partir da última semente é muito difícil, quase impossível, mesmo em Almar. E continuou...

...cada criança Almar tem um sonho para estas cinco sementes e elas são, elas são exactamente todos esses sonhos.

~CC~

4 comentários:

Cristina GS disse...

Boas inspirações!

CCF disse...

Ainda não percebi se gostas ou não...:)
~CC~

Mar Arável disse...

BOM TEXTO

CCF disse...

Obrigada Mar arável! Também leio com muito gosto o que escreves.
~CC~