terça-feira, 3 de julho de 2007

Guarda-rios e estuários (IX)



Em Almar quando alguém partia para dentro de si próprio isso significava que tinha seguido o trilho ancestral até à fonte. Era um tempo em que ninguém o procuraria, uma pausa no seu lugar entre nós. Os seus dias seriam sem outro alimento que não a água da fonte e frutos apanhados das àrvores e arbustos que pela sua proximidade seriam feitos também do mesmo líquido. Há muito que conhecíamos o que a ciência hoje explica: que na limpidez da água que nos compõe se encontram todos os espelhos de que precisamos para sarar a nossa alma.
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Seguir esse trilho podia ter como origem um amor a nascer ou a morrer ou a necessidade de o ver por dentro. Ou a perca súbita do sentido da vida. Ou um desejo muito intenso. Ou a necessidade de ajudar a curar alguém com a energia da nossa solidão. Ou simplesmente estar-se cheio de palavras. Quantas razões há para a busca de um tempo interior descompassado do tempo dos outros, o tempo deles a correr como se o nosso não tivesse parado?
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Partia-se com um pano Almar, de preferência magenta. Quase todos regressavam. E no regresso estavam mais magros, mais morenos e mais capazes de sorrir. Traziam quase sempre flores para dar a alguém que tinha ficado à sua espera.
~CC~

4 comentários:

João Torres disse...

Essa do vir mais magro é tentadora.... Onde era mesmo a tal fonte?

Cristina Gomes da Silva disse...

CCF, eu acho que andas a precisar de ir à fonte, mas por razões diferentes das do João...

j disse...

Não é que conheça bem a obra dele, mas estes teus textos têm um "aroma" de Tolkien, uma magia fantástica muito curiosa. És fã?

CCF disse...

Bom dia! Conheço também mal a obra dele mas gosto do que conheço. Obrigado pelo "aroma", às vezes toma simplesmente conta de mim ou, se quiseres, vive comigo.
~CC~