terça-feira, 31 de julho de 2007

Francisco José Viegas

ou um bom exemplo de que se pode fazer alguma coisa (grandes coisas, às vezes) indo além da habitual e lamurienta "crise". Crise de vontades, talvez...

Michelangelo Antonioni

Canto trigésimo quinto

Água, fogo e depois cinza
os ossos dentro da cinza,
o ar treme em redor da Terra.
(...)

in Tonino Guerra, O Mel, Assírio e Alvim, 2003

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Ingmar Bergman

Hoje, todos os morangos me pareceram silvestres.

Herberto Helder*

Boa noite, a quem passa nesta cidade, acompanhado de poesia.

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
(...)

Herberto Helder,Poesia Toda,Assírio & Alvim,1979

*Transcrito ao som de Danilo Perez, Alfonsina y el mar

Homens tristes com música

Naquela manhã tinha acordado a ouvir dentro de si a "Paixão Segundo S. Mateus" de J.S.Bach. Achava mesmo que tinha sido despertado por ela. Levantou-se, abriu a janela, inspirou os primeiros odores da manhã e saudou o gato cinzento de olhos verdes que se espreguiçava em cima do telhado da casa da vizinha, afagado pelos primeiros raios de sol. Invejou-o. De certeza que ele, o gato cinzento de olhos verdes, não tinha despertado com aquelas notas belas e tristes.

Julgou, então, ter encontrado a chave para aquela indizível tristeza que o acompanhava havia já algum tempo. As músicas que ouvia ultimamente eram tristes, todas elas escolhidas por serem tristes. Sabendo-se tão permeável aos sons, não podia continuar naquele trilho lento e arrastado por muito mais tempo. Precisava de deixar sair aquele torpor provocado pela tristeza.

Procurou na estante dos CD's e encontrou-a, e foi a ouvir aquela voz sussurrada e quente que entrou na banheira:

April skies are in your eyes
But darling, don't be blue
Don't cry,
Oh honey please
Don't be that way
Clouds in the sky
Should never make you feel that way
The rain
Will bring the violets of may
Tears are in vain
so honey please don't be that way
(...)

Ella Fitzgerald

domingo, 29 de julho de 2007

Dia de festa....

Sábado foi dia de festa... Não por virem cantores do mundo a Sines, e as ruas estarem cheias de gente, mas porque alguma dessas pessoas que ajudavam a encher as ruas de Sines, serem família e amigos.

Sábado foi dia de assar sardinhas e febras para 15 pessoas, dar uns mergulhos na piscina e por a conversa em dia com a mana velha (que não o é assim tanto!)

Sábado foi dia de levar a sobrinha, com quem andei ao colo há bem pouco tempo, ver e ouvir grupos que só ela conhece.

Sábado foi dia de tentar jantar em Sines e só conseguir comer umas bifanas servidas por uma linda menina, com sotaque de leste, cabelos loiros e uns lindos olhos...

Sábado... foi um grande dia!

(*) As casinhas ali em cima estavam no parque de merendas, em Santiago do Cacém, onde sábado passámos a tarde...

Ainda os livros*

"Agora as minhas letras descansam dentro de mim, mas vou lendo as tuas e o modo como às vezes elas dizem mais de ti do que tudo o resto...é assim a escrita." Disse a CC no comentário ao post Ler. E eu digo-lhe em jeito de correspondência epistolar:

"Cara CC,

Não sei se estou de acordo contigo (mas também já não é novidade). A escrita tem o seu lugar, a sua função, mas também tem, para mim, alguns limites: os limites da comunicação. Não há nunca um face a face entre quem escreve e quem lê, no mesmo acto de comunicar, tudo é sempre em diferido. Como sabes, apesar de o fazer, incomoda-me o processo virtual em que escrevemos. Prefiro incomparavelmente o calor de uma boa discussão e o som das vozes à frieza desta escrita/leitura à distância. Olhar-te nos olhos é diferente de escrever para que me leias, não sei onde nem quando. É este desconforto que nomeio de cada vez que nos interrogo por aqui. Acho-a incompleta, esta relação inodora e sem contornos que por aqui vamos estabelecendo, compreendes-me? E, olha, o que descobri ontem, apesar de já ter sido escrito há algum tempo – George Steiner, O Silêncio dos livros, Gradiva, 2007:

A escrita constitui um arquipélago na imensidade oceânica da oralidade humana. (…) Milhares de anos antes do processo de desenvolvimento das formas escritas já se contavam histórias, já se transmitiam por via oral ensinamentos de carácter religioso e mágico, já se compunham e transmitiam fórmulas encantatórias de amor, ou então anátemas”. p.8

E, mais adiante, sobre a música: “Não existe neste planeta um único ser humano que não mantenha com a música um qualquer tipo de relação. A música, sob a forma do canto ou da execução instrumental, parece ser de facto universal. É a linguagem fundamental para comunicar sentimentos e significações. A maior parte das pessoas não lê livros. Porém, canta e dança” p.9

E, depois sobre as origens “(…) a nossa herança intelectual e ética, bem como a leitura que fazemos da nossa identidade e da morte, vêm-nos directamente de Sócrates e de Jesus de Nazaré. Nenhum deles, contudo, fez questão de ser autor e muito menos de ser publicado” p. 9

Repara que ele fala de herança intelectual e ética, mas, e as outras, as dos sentidos, as dos sentires?

Atenta bem agora, "(…) Sócrates não escreveu nem ditou. São profundos os motivos que explicam esta questão. O confronto olhos nos olhos e a comunicação oral em espaços públicos são razões essenciais. (…) Em Sócrates, o pensamento, mesmo o mais abstracto, e a alegoria, mesmo a mais impenetrável, supõem a experiência vivida, irredutível a toda e qualquer textualidade muda.” pp. 9-11

Que fique claro que não advogo qualquer retorno às origens, serei eternamente dependente da escrita e…dos livros, mas prefiro de longe a (con)versa, as vozes nas conversas, os olhares e os corpos.

E para acabar por hoje, porque está muito calor e os sentidos andam à solta, não quero correr o risco porque “O escrito apodera-se dos sentidos” p.14

Abraços cheios de calor,
C."

*Escrito ao som de Miles Davis.

Verão

Ria Formosa. Verão 2007
~CC~

sábado, 28 de julho de 2007

Ler

É nome de livraria. Livraria de bairro. São 11 da manhã e depois do cafezinho habitual, das brincadeiras no parque e de alimentar os patos com miolo de pão, vamos à livraria.

Três homens idosos discutem pausadamente, fazem uma espécie de crítica literária oral. Trocam pontos de vista, preferências e gostos. Um deles é o dono, o outro um empregado e o terceiro um cliente respeitado e habitué.

Este último levanta-se e pega num livro, mira-o e exclama "Philip Roth, é um judeu americano, ganhou um Pulitzer e parece que se prepara para ganhar um Nobel (ou Nóbel, como diz o nosso Saramago). Nunca li nada dele, mas olhe vou levá-lo também. Sabe, há algumas lacunas que gostava de eliminar antes que tudo se acabe, é que já são 93 e meio e um olho a menos, mas quando acabar acabou. Hoje está muito calor, ainda pensei ir às Amoreiras mas, agora que já tenho companhia, vou para casa e já não saio". Disse tudo assim de rajada, pagou e saiu apoiado numa elegante bengala de madeira cor de mel.

Chega a minha vez, mas não há o que procuro. O dono, solícito, mostra-me as novidades e dá-me conselhos: "Já leu este? É extraordinário. Leia e depois diga-me se gostou". Trata-se de Selma Lagerlöf e da Maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia. Trouxe-o comigo e parece-me que peguei num pedaço de história muito particular (como pode ser qualquer livro). Há dias ao (re)ler o Futuro está aberto, um conjunto de entrevistas feitas a Karl Popper e Konrad Lorenz, tinha encontrado o seguinte "(...) Quanto a Selma Lagerlöf, Karl já disse de forma mais agradável que fomos ambos influenciados por ela, apenas com a diferença de que ele se apaixonou pela Selma Lagerlöf... e eu pelos gansos selvagens", in O futuro está aberto, Editorial Fragmentos, 1990, p.19

Hei-de voltar, depois de ter lido, para cumprir a minha parte do acordo.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Decantar a vida


Por aqueles dias sentia-se cansada, não que o trabalho a torturasse muito ou as crianças se impusessem mais do que o habitual, mas sentia um cansaço ancestral, sem origem nem destino. Amando a vida sentia um inexplicável cansaço de existir. O mar, a praia eram por vezes um escape. Mas, ultimamente essa longínqua linha do horizonte, na praia, não chegava para o seu desejo de evasão. Condensava as ideias, acumulava-as até ao dia em que sabia certa a implosão. Imaginava-se numa vida sem grandes raízes e mais como uma árvore que ergue os ramos para o céu. Como um cipreste. Gostava da elegância dos ciprestes apesar da negativa conotação que muitos lhes atribuíam.

Tinha iniciado há algum tempo aquilo a que chamava “um trabalho de decantação da vida”. Os amigos riram-se quando lhes contou da tarefa empreendida. “Decantação da vida?" "Sim, senhores, um exercício doloroso mas inevitável e indispensável. Como um viajante que para seguir viagem tem de se despojar de tudo o que está a mais, de tudo o que pesa na bagagem. Reduzir a vida ao essencial, era isso decantar a vida.”

Sabia que às vezes até os afectos podiam fazer transtorno a quem empreendia tal viagem. Lembrava-se dos versos de Pessoa “o mesmo amor que tenham por nós quer-nos e oprime-nos”. Libertar-se então dos afectos. E depois? Que “alimento” teria? Com que ombros contaria? Que vozes a alentariam? Que olhares lhe devolveriam a sua imagem? Não podia fazer tal caminho sem regressar sempre que precisasse. Precisava muito de portos de chegada. Mas, e os outros, como faria com os outros? Os que tinham aprendido a confiar-se-lhe, os que precisavam dela para existir? Não, a decantação não podia passar por aí. Apetecia-lhe um período de retiro, de introspecção e renascimento de si. Imaginava os que entravam em mosteiros e faziam temporários votos de silêncio, meditação, reflexão, vidas simples, desornamentadas.

Sabia de que pais tinha nascido, em que terra tinha nascido, hora, dia e ano, mas o sentido da vida exigia mais do que simples informações grafadas numa certidão de nascimento. Que caminho e que projecto teria então para levar a cabo.

Às vezes era o desnorte. Não se reconhecia. Sempre tinha racionalizado tudo, etapa por etapa, sem ondas nem sobressaltos. Na aparência dura e racional, era todo um trabalho que lhe roubava energias, para conseguir proteger a sua verdadeira pele. Camadas e camadas de máscaras e aparências ditadas pelas circunstâncias escondiam a sua essência. Já nem sabia onde, nem como procurá-la. Pensava-se como uma duna no deserto, fustigada pelo vento. Aparentemente punha a descoberto a camada seguinte, mas havia sempre outra e outra. Era uma busca de si dolorosa e demorada e nem sempre gostava do que encontrava. Alheava-se do que a rodeava, deixava que o pensamento voasse para longe dali e sentia-se sempre estranha mesmo entre iguais. Sentia-se sempre a mais, deslocada, inconfessadamente perdida.

Talvez a decantação exigisse várias fases, muita paciência, muita atenção. Uma vida inteira. Rasgando-se por dentro continuava teimosamente a marcar encontro consigo própria perguntando-se se o mesmo aconteceria aos outros.